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Filmes cujos discursos poéticos inflamados eram proferidos à exaustão pelos personagens, eram comuns na corrente experimental do cinema brasileiro. O cinema novo trouxe uma linguagem autêntica – com os tais discursos poéticos – que quebrava as barreiras do realismo, mesmo com a proposta de discutir problemas reais relacionados ao Brasil. A Alegria, dirigido por Felipe Bragança e Marina Meliande, combina elementos do cinema fantástico, uma protagonista com verborragia transgressora e cenário de alguns bairros do Rio de Janeiro. Há o desejo de moldar a realidade de acordo à própria expectativa. Conforme a vontade dos ‘super-heróis’, os jovens.

O longa A Alegria é uma fábula em que Luiza (Tainá Medina), uma garota de 16 anos, passa alguns dias sozinha no apartamento da mãe, e precisa esconder um primo que foi baleado em circunstâncias misteriosas. A adolescente é contestadora, inconformada com a realidade do mundo na qual está inserida, e – na companhia de amigos – rebela-se contra a “crise” sistêmica desta sociedade em que os adultos “comandam”.

Na obra, os mais velhos têm representatividade ínfima na trama. Na sequência em que Luiza faz uma prova na sala cheia de alunos, e o professor levanta para verificar possível ato rebelde durante o exame, a câmera não focaliza o rosto daquele que, em termos, é o “líder” da ocasião, e mesmo na reprimenda não há voz. O foco é na expressividade, irônica, debochada, de Luiza. A representante dos novos transgressores.

Filmado na região do Largo do Machado, e Catete, o filme mescla o real com o imaginário. É uma obra intimista que debate questões amplas em cenário de cartão postal. Com exceção do ator César Cardadeiro (Pedro), que possui experiência na TV e no teatro, o elenco jovem é formado por atores sem experiência. A limitação é evidente, porém, Tainá Medina concebe a protagonista com competência. A jovem tem um ‘olhar’ forte, e representativo, que oferece o tom preciso à idiossincrática Luiza

A Alegria é um filme experimental. Apesar de alguns problemas no ritmo narrativo, a obra tem como mérito a ousadia. É de grande acerto transpor a barreira do realismo no intuito de mostrar a rebelião ideológica da ‘geração Msn’. O filme teve ótima recepção em Cannes 2010, na Quinzena dos Realizadores; recebeu os Candangos de melhor ator coadjuvante (Rikle Miranda) e direção de arte no Festival de Brasília; e participou dos festivais de Santa Maria da Feira, em Portugal, Roterdã e Tiradentes.



A Alegria – 100 min
Brasil – 2010 
Direção: Felipe Bragança, Marina Meliande
Roteiro: Felipe Bragança 
Elenco: Tainá Medina, Clara Barbieri, César Cardadeiro, Flora Dias, Maria Gladys, Mariana Lima, Sandro Mattos, Rikle Miranda, Junior Moura, Marcio Vito

Estreia: 19 de agosto.

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