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Levar às telas a história de um excêntrico artista com incontáveis vícios e manias não é novidade. E diante da considerável fartura de filmes biográficos cujos personagens adotam um estilo de vida, digamos, alternativo (Johnny & June, Ray, Piaf, para citar alguns exemplos), é evidente a possibilidade de a próxima obra vir com ‘gosto requentado’, sem nuances que a diferencie das demais. Não é o caso de Gainsbourg – O Homem que Amavas as Mulheres. A obra do quadrinista Joann Sfar, que narra a vida do músico francês Serge Gainsbourg e seus incontáveis casos amorosos, oferece novos elementos pela escassa preocupação em buscar ‘versões de terceiros’ de aspectos comportamentais do músico, e por não exibir manchetes impressas com seus feitos. Gainsbourg vive em um mundo à parte, individual, onde dita as próprias regras. E a narrativa opta por acompanhá-lo neste universo particular. Boa escolha.

Já na infância, o filho de pais judeus e ainda chamado de ‘Lucien Ginsburg’, quando interpelado por cantar músicas indecentes, dizia que “não há idade para a malandragem”. Cresceu, e o atributo fez-se presente na vida adulta. Boêmio incorrigível, trocou o primeiro nome e enfim consagrou-se como Serge Gainsbourg. Apesar das orelhas de abano e do nariz proeminente, o charme e a inteligência peculiar do músico eram mecanismos essenciais nas conquistas amorosas (se é que os relacionamentos podem ser considerados ‘amor’). Musas como Brigitte Bardot, Jane BirkinJuliette Grecco são algumas das beldades que preenchem sua vasta lista de mulheres. Compreendendo o ‘olhar másculo e ousado do protagonista, a direção opta acertadamente por vários planos nos corpos esculturais das amantes e namoradas de Gainsbourg



E na caracterização do protagonista é louvável a performance de Eric Elmosnino, que ganhou o César – considerado o Oscar francês – de melhor ator. Fisicamente parecidíssimo com o Gainsbourg original, Eric esbanja talento na construção de um personagem desorientado, que não demonstra nítidos interesses em vivenciar regras sociais. Bem relacionado com a família, o músico tem poucos amigos. É um transgressor, mesmo na fase adulta fala sozinho e tem uma espécie de amigo imaginário que o auxilia nas jornadas cotidianas desde os tempos joviais. Um personagem animado, com nariz enorme e corpo longilíneo, concebido com a experiência na arte gráfica de Joann Sfar, representa o mentor das “desventuras” de Gainsbourg.

Gainsbourg – O Homem que Amavas as Mulheres é uma grata homenagem ao músico, pois em 2011 faz 20 anos de sua morte. Identifiquei-o como um Noel Rosa francês, pela sintonia com ritmos populares, o apreço por cigarros e bebidas e, é claro, pela habilidade no galanteio, mesmo com a incontestável feiúra. O artista francês não é unanimidade, já que muitos o consideram uma fraude, e  a criação de uma versão inusitada da marselhesa desagradou muita gente. No entanto, Gainsbourg viveu intensamente com suas verdades (e mentiras), não as dos outros.



Gainsbourg: O Homem que Amava as Mulheres (Gainsbourg: Vie Héroïque) – 130 min
França – 2010
Direção e Roteiro: Joann Sfar
Elenco: Eric Elmosnimo, Lucy Gordon, Letitia Casta, Anna Mouglalis

Estreia: 08 de julho (Rio de Janeiro e São Paulo).
 
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