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Em A Falta Que Nos Move, filme de estreia da diretora de teatro Christiane Jatahy, cinco atores vivem um encontro para uma ceia natalina entre amigos. Com a participação de Walter Carvalho na direção de fotografia, e dos atores Cristina Amadeo, Daniela Fortes, Marina Vianna, Kiko Mascarenhas e Pedro Brício, foi filmado num dia 23 de dezembro, ambientado no tempo real, num casarão no Rio de Janeiro, onde os atores passam 12 horas juntos, bebendo, cozinhando, conversando e seguindo um roteiro desconexo, com histórias e improvisos, enquanto aguardam a chegada de uma sexta pessoa. Tudo parece real, segundo os 10 preceitos estipulados pela diretora:

1) cinco atores.
2) uma única locação.
3) 12 horas contínuas de filmagem.
4) três câmeras simultâneas.
5) atores dirigidos durante a filmagem por mensagens de texto.
6) os atores esperam por uma pessoa que não sabem realmente se ela virá.
7) eles seguem roteiros, mas não conhecem todos os roteiros uns dos outros.
8) eles comem, cozinham e bebem de verdade.
9) algumas histórias são reais, outras são inventadas.
10) ninguém pode sair, aconteça o que acontecer.

Com esse sistema e os atores aparentemente à vontade, dirigidos pelas mensagens de texto em seus telefones celulares, a diretora Jatahy criou um ambiente típico de reunião entre pessoas. A liberdade dada aos atores, e a sensação de que eles não estão atuando, conferem ao clima um realismo palpável. Em tempos de reality show, ver a interação entre atores é quase um exercício antropológico. E é justamente esse realismo que deixa o espectador perplexo o tempo inteiro. Você pode se perguntar do início ao fim e talvez não consiga achar a resposta. E é justamente aí, no limiar entre vida real e a ficção, que reside toda a tensão da obra.

Ao terminar o filme é inevitável pensar no clichê "a vida imita a arte", enquanto me recupero do choque brutal entre a realidade e a ficção. Não como numa notícia de jornal, mas na mistura dos dramas individuais daquelas cinco pessoas. Reais ou imaginários, suas histórias têm profundidade, paixão e dor que nos atingem diretamente. A ausência de personagens corrobora o mistério: os atores usam seus próprios nomes. Ao menos na teoria, não há personagens.



Para chegar a tal resultado, Jatahy criou o roteiro de forma colaborativa. "O roteiro em si não foi discutido com os atores, mas, sim, o desenvolvimento das relações e a linha dos personagens. Eles improvisavam algumas cenas propostas por mim, eu definia se esssas cenas iam ou não entrar no filme", explica a diretora, que também assina o roteiro. Associado à edição, esta forma quebrada de roteiro conferiu um senso de realidade quase documental a tudo, corroborado por algumas linhas em que os atores manifestam sentimentos com relação à gravação, ao filme e até falam com os câmeras. A própria diretora se faz presente na montagem final, com as pequenas interferências via celular.

O resultado é um filme inicialmente cansativo, que parece uma versão de cinema do Big Brother. No entanto, esse efeito é suplantado quando a noite cai na casa, e as tensões começam a surgir entre os atores/personagens. Motivada inicialmente por um elemento comum a todos, a fome, a tensão surge gradualmente, mas sob vários aspectos, transformando o filme quase num thriller psicológico. Há brigas, há dramas do passado, há rancor. Todos os elementos que podem transformar uma simples reunião de amigos numa bomba relógio humana. O longa se torna interessante, e ainda que saibamos não ser possível um final, ficamos grudados ao desenrolar dos fatos e inevitavelmente elegemos nossos preferidos entre os cinco. Tal como um num reality show, você vai se identificar e torcer pelo seu preferido. 

Em 2009, o filme participou do Festival do Rio e da Mostra de Cinema de São Paulo. No ano seguinte, foi exibido no Festival de Tiradentes, na Mostra de Cinema Contemporâneo Brasileiro e Argentino em Buenos Aires e no Festival Main Cine em Frankfurt. Com produção da Tambellini Filmes e distribuição da Espaço Filmes, A Falta Que Nos Move estreia no dia 1º de julho em sete cidades.



A Falta Que Nos Move – 95 min
Brasil – 2009
Direção: Christiane Jatahy
Roteiro: Christiane Jatahy – Baseado no espetáculo A Falta Que Nos Move ou Todas as Histórias São Ficção
Elenco: Cristina Amadeo, Daniela Fortes, Marina Vianna, Kiko Mascarenhas, Pedro Brício

Estreia: 01 de julho (Curitiba, Fortaleza, Juiz de Fora, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador, Santos e São Paulo).

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  1. Eu ví esse filme um dia desses e achei a história bastante intrigante e um pouco cômica...enfim, vale muito apena ver!

    @Dariokp

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  2. Esse filme nao convence..
    Nao conseguimos ver os "casais" tal qual a diretora assim pretende...vemos atores cada um c sua sexualidade "fingindo" um relacionamento hetero qd descaradamente vemos um homo tentando fazer o personagem casado com uma mulher..

    Achei PRETENCIOSO... talvez interessante pela proposta mas não pelo resultado final...

    ResponderExcluir

 
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