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Seria inconcebível um documentário que se pressupõe a analisar o processo de construção da Estrada Real – caminho criado para o transporte de pedras preciosas do interior de Minas para o litoral no século XVII – mostrando a cachaça como uma espécie de símbolo mor, na discussão sobre as nuances do povo brasileiro que compõe o cenário interiorano, ter estrutura narrativa linear dentro de estética marcada pela sobriedade (não que o filme se perca em uma ‘embriaguez’ tortuosa e confusa, jamais). Estrada Real da Cachaça é um trabalho ousado que colhe frutos na sua narrativa. Serve como documento histórico-sociológico sobre aspectos importantes da história do Brasil, onde a cachaça tem importância fundamental.

A bebida de altíssimo teor alcoólico está presente no ritual de culto às divindades – religiões cujas matrizes africanas as tornam maléficas no viés catequista do europeu, chamadas vulgarmente de “macumba” e os adeptos de “macumbeiros” –; no cotidiano do minerador, entre mulheres que lavam roupa cantando como em tempos antigos. Há paixão no processo de fabricação artesanal da bebida. Os belíssimos planos detalhes da bebida em fase de fermentação e nas canas de açúcar na fase de extração do caldo ratificam a devoção do feito. Os amantes da pinga a degustam com semblante de ‘louvação’; afinal, ela é apreciada no frio para esquentar, e no calor para refrescar; afirma determinado personagem.

Há no documentário, também, o constante uso do som ambiente de zumbidos, alambiques velhos, galhos retorcidos que balançam com o vento; em imagens cuja fotografia varia da normalidade para um vermelho estourado, ou um preto e branco ‘envelhecido’. O recurso técnico, da mesma forma que certos travellings pontuam a descontinuidade de tempo e de espaço da obra. E é uma abordagem coerente com a temática. Permeia um tipo de brincadeira do diretor Pedro Urano, como se o espectador fosse apresentado às sensações sinestésicas dos personagens sobre efeito da cachaça; o “descontrole” jamais confunde ou cansa, pois é orquestrado com minúcia.

Vencedor do Prêmio de Melhor Documentário no Festival do Rio 2008 e de Melhor Documentário Latino-Americano no Festival de Mar Del Plata 2008, Estrada Real da Cachaça revela a paixão do brasileiro do interior – tropeiro, minerador, pescador, empresário local – pela mais brasileira das bebidas. Não importa a época. No período colonial, quando a Estrada Real era delineada por antas, no império ou na república, o preço da cachaça, obviamente, é inferior ao preço do ouro. Mas o valor atribuído à bebida por milhares de brasileiros é comparável ao de qualquer pedra preciosa.



Estrada Real da Cachaça – 98 min
Brasil – 2008
Direção e Roteiro: Pedro Urano

Estreia: 17 de junho.

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