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Baseado no conto homônimo de Eça de Queirós, Singularidades de uma Rapariga Loura apresenta a história do jovem Macário (Ricardo Trêpa) e uma desconhecida, em um trem para Algarve. Trabalhando como contador no escritório do seu tio Francisco (Diogo Doria), em Lisboa, ele se apaixona perdidamente por uma moça que admira pela janela. Luísa Vilaça (Catarina Wallenstein) é dona de cabelos loiros e uma beleza singular, além de carregar sempre um requintado leque chinês, também presente no conto. Logo, Macário decide se casar com ela. Porém, seu tio é contra o casamento e o expulsa de casa. 

O rapaz então recebe uma proposta para ir a Cabo Verde trabalhar e lá consegue enriquecer. Ao retornar se torna fiador de um investimento de um amigo, que acaba por deixá-lo na mão, e por isso Macário fica novamente sem dinheiro. Então, o tio volta atrás de sua decisão e aceita o casamento. Finalmente estável, o contador vai pedir Luísa em casamento. Porém, quando ambos vão comprar a aliança, as singularidades do título finalmente são descobertas na personalidade da moça. 

O filme reproduz o conto de 1874 tentando trazê-lo para atualidade. Porém, a arquitetura antiga de Lisboa, os móveis, alguns figurinos e demais elementos parecem ter sido tirados do passado, o que deixa a história sem um tempo marcado. O próprio comportamento dos personagens é bem antigo o modo como ocorrem o desenrolar do romance e o pedido de casamento são bem tradicionais. Esse conservadorismo parece ser fruto do estilo único do diretor Manoel de Oliveira, representado em uma cidade onde o passado e o presente se misturam.


Muitas sutilezas devem ser apreciadas em diversos momentos do longa, como na cena em que o casal se beija e o foco vai para os pés deles, quando a moça levanta suavemente o pé, em um gesto já conhecido. Tudo parece ter uma simbologia específica aos olhos do diretor. Também é interessante observar a cena em que Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, é recitado. O trecho do poema Guardador de Rebanho parece alertar Macário sobre o que virá, em uma belíssima cena na qual, ao fim do poema, a câmera se afasta do recitador e se aproxima do casal, que começa um jogo de cartas. Um jogo de paixão, confiança e ilusão. Afinal, Macário se apaixonou pela imagem vista da sua janela, e não por uma mulher. 

Para os que não conheciam o conto, como eu, resta o final surpreendente, mas falta a apreciação dos detalhes e dicas dados ao longo da história. Não há grande clímax, pois a narrativa segue em um ritmo suave. Devido à sua curta duração, Singularidades de uma Rapariga Loura dá a sensação de ser um conto filmado, o que deixou a história muito mais agradável. O filme honra o conto em que foi baseado e ainda o enriquece com as sutilezas de Manoel de Oliveira.

Por: Maria Andrade 



Singularidades de uma Rapariga Loura – 63 min
Portugal, França, Espanha – 2009
Direção e Roteiro: Manoel de Oliveira
Elenco: Ricardo Trêpa, Catarina Wallenstein, Diogo Doria, Julia Buisel, Leonor Silveira, Filipe Vargas

Estreia: 13 de maio.

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  1. Também vi este filme na última mostra de cinema internacional do Rio de Janeiro. Excelente, singular, coisa pouco vista antes, com toda estranheza com que sempre nos brinda (para melhor e, algumas vezes, também para o pior) Manoel de Oliveira. Vejam este filme: ele oferecerá a muitos uma perspectiva especial do cinema, como se fosse uma "arte", algo raro em cinema, que começou como excentricidade tecnológica, derivou para entretenimento de messas e, um dia, foi tomado por artistas como mais um espaço para criação - esta última perspectiva majoritariamente se perdeu, mas há os filmes de Manoel de Oliveira!

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  2. esse é o tipo de filme que eu jamais irei assistir! como se só as loiras fossem raparigas... tô ligado! rapariga em portugal é moça, então não é discriminação. eu sou muito burro mesmo

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