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Não é novidade o fato de filmes de outros países serem lançados no Brasil com títulos, para dizer o mínimo, pouco inspirados. O original The Infidel (cuja tradução  literal significa O Infiel) entra em cartaz no país com o nome Santa Paciência. Felizmente, o ‘gosto duvidoso’ coube apenas aos responsáveis pela intitulação brasileira desta interessante comédia inglesa, que apesar de não ser um ‘divisor de águas’ – de gênero e estilo narrativo – é uma bem humorada mostra do embate entre judeus e muçulmanos sob a ótica de um muçulmano não praticamente que já adulto, descobre ser judeu.

Mahmud (Omid Djalili) é um sujeito normal, estressado, porém bem humorado e com alguns quilos a mais; é um muçulmano ‘não praticante’ que  ignora o noticiário de confrontos étnicos para assistir aos números musicais do artista pop Gary Page. Certo dia, porém, Mahmud descobre ser adotado e que os pais biológicos são judeus. Tem-se início a jornada do ‘ex-muçulmano’ no aprendizado de alguns preceitos do judaísmo, enquanto esconde da família e dos amigos sua nova e verdadeira identidade étnica. Indubitavelmente, a história de um cidadão comum de uma hora pra outra “tornar-se” membro de duas religiões rivais é um prato cheio para confusões.

E graças ao inteligente roteiro de David Baddiel tais disparates são explorados em inteligentes diálogos com o politicamente incorreto (neste caso imprescindível) usado em doses certas. Além, é claro, da exploração das caricaturas entre as duas etnias; o judeu ambicioso, do nariz grande, e o muçulmano ‘homem-bomba’. O clichê neste caso é indissociável da lógica narrativa. Não há como explorar o tema com leveza sem evidenciar tais chavões.


Os coadjuvantes são figuras precisas no filme, com destaque para o amigo judeu de Mahmud, um homem que mostra seu grau de “devoção” ao judaísmo ao dividir o espaço de uma fita cassete na gravação de filmes com danças e outras representações típicas da cultura judaica, com filmes pornográficos. Outro personagem que se destaca é o pai da noiva do filho do ‘novo Judeu’, um muçulmano fanático com inclinações belicistas um tanto quanto disfarçadas, pois na sua concepção é preciso ter “moderação na moderação”. Ou seja, não é preciso muito para ir à luta contra os ‘infiéis’.

São tempos de guerras religiosas em que brincadeiras ou simples comentários são frequentemente confundidos com posicionamentos discriminatórios e ofensas a outros grupos étnicos. E em que, de fato, existem ofensas e conflitos armados motivados pela histórica incompatibilidade filosófica entre diferentes credos, dentre outros motivos. Santa Paciência é uma comédia leve, que discute tais questões pesadas, concomitantemente exploradas e debatidas pela mídia, de forma certeira, com otimismo peculiar ao gênero mas sem descambar para o exagero sentimentalóide. É bom saber que a única coisa a ser ignorada neste filme é o título brasileiro.

Por: Bruno Mendes  



Santa Paciência (The Infidel) – 105 min
Reino Unido – 2010
Direção: Josh Appignanesi
Roteiro: David Baddiel
Elenco: Archie Panjabi, Matt Lucas, Richard Schiff, Omid Djalili

Estreia: 20 de maio.


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  1. Márcio Pinheiro9 de maio de 2011 15:11

    Quem faz traduções de titulos de filmes é a equipe de Marketing, e não os tradutores, que se encarregam da legendagem dos filmes, com restrições de espaço. Por vezes os textos são muito mexidos para as dublagens. Há decisões outras qque não são de cunho tradutório.

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  2. Esse filme é realmente mt bom, ainda mais p quem é judeu (no meu caso) ou muçulmano!!! Infelizmente aqui no Brasil sempre estragam os títulos originais dos filmes...o título original "O Infiel" é mtt mais emblemático e dentro do contexto do que "Santa Paciência"...Santa Paciencia p nós, em ter q aturar esses títulos ahhahah

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  3. Acho que sua crítica, ao tentar abordar o conflito entre judeus e muçulmanos, envereda no senso comum de "guerra religiosa" e uma "incompatibilidade filosofica". Essas ideias, primeiro, são construídas para que não haja discussão que vá além disso, ou seja, são construídas para que não se questione a série de outros interesses MUITO mais importantes que a religião. Segundo, parece não combinar com o que foi apresentado exatamente no filme que está resenhando, isso porque o filme tenta mostrar exatamente que não há essa grande diferença filosófica, o que há são conflitos de outras ordens que fazem com que, de qualquer lado da questão (judeu, muçulmano), torne a questão religiosa como principal.
    Basicamente, é preciso entender que são outras questões que envolvem o conflito muçulmano/judeu, sendo o principal deles o conflito Israel/Palestina. Este conflito é revestido de religiosidade, sim, mas não só isso. Por trás estão questões economicas e políticas.

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  4. Achei o filme de regular a bom. Boa comedia, conseguiu ridicularizar os dois lados e mostrar como complexa e a relacao entre judeus e muculmanos. Por extensao, mostra como nos, seres humanos, somos tao limitados e superficiais em termos de julgamento de valores, do que e bom ou nao e bom. E como mudamos de ideia com rapidez, o que e bom hoje, pode ser ruim amanha, o culpado de hoje pode ser o heroi de amanha. O ator que faz o protagonista e realmente mto bom, comediante que chega a ser meio histrionico. E gostei tb dos dialogos, realmente engracados, em alguns momentos. Como comedia, muitos momentos forcados, como e proprio desse genero de filme. Nao foi ruim, mas poderia ter sido melhor.

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