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Uma explosão. Um pênis decepado e um capacete azul das Nações Unidas é tudo o que resta como prova de um dos vários crimes que têm acontecido em Tizangara. Nesta vila fictícia, perdida em algum recôndito  lugar de Moçambique, a realidade desafia a ilusão, e o cético Major Massimo Risi (Carlo D'Ursi) se vê paulatinamente envolvido numa trama de mistério, amor e magia. Destacado pela ONU para investigar o desaparecimento de alguns soldados da força de manutenção de paz, ali instalados após dois períodos intensos de guerra, Risi recebe a ajuda de Joaquim (Elliot Alex), morador da vila e tradutor-intérprete. O tradutor, que pouco a pouco se torna um amigo do Major, é um jovem que parece querer se esquecer das tradições da terra em que nasceu. Ávidos por encontrar a verdade como acham que deveria ser, eles verão que as antigas lendas vivem, e que não se pode perceber tudo na vida.

Adaptação do romance homônimo de Mia Couto, o filme segue o passo lento e moroso da vida na África selvagem, onde o ritmo das pessoas é ditado pelo próprio tempo. A vida é permeada pelo respeito aos ancestrais mortos, aos antigos cultos e à magia do local. Toda a trama é vivida sob a ótica do Major Risi, à medida em que ele se envolve mais e mais com os personagens do local: a prostituta Ana Deusqueira (Adriana Alves), que a princípio surge como principal suspeita e, mesmo inimiga dos brancos, se mostra uma mulher apaixonada; a velha-moça Temporina (Cláudia Semedo), um mistério que Risi não consegue decifrar, mas que lhe rouba o coração; e mesmo o velho Sulplício, com toda sua sabedoria ancestral, e que pode ser muito mais que suas barbas brancas transparecem.

O clima de mistério é mantido do começo ao fim, e é o que nos mantém conectados à história. Por mais fantasiosos que sejam os eventos narrados, ainda assim é preciso ver a conclusão. E, numa virada inesperada, ela se mostra mais próxima do que poderíamos ter suspeitado. Quem tiver imaginação não será capaz de vislumbrar a verdade, quando esta foge da fantasia. Um filme que deve ser visto. Em primeiro lugar pelo inusitado, pela possibilidade de conhecer uma África de pessoas reais e dramas que estão alheios à fome e à guerra. Em segundo lugar, pela beleza onírica das paisagens, pelas alusões fantásticas e pelo texto delicado, recheado de bordões africanos e frases repletas da sabedoria dos antigos.




O Último Voo do Flamingo – 90 min
Moçambique, Portugal, Brasil – 2010
Direção: João Ribeiro
Roteiro: Gonçalo Galvão Teles, João Ribeiro – Baseado no livro de Mia Couto
Elenco: Carlo D'Ursi, Elliot Alex, Alberto Magassela, Cláudia Semedo, Adriana Alves, Matias Xavier, Gilberto Mendes, Mário Mabjaia, Eduardo Gravata

Estreia: 20 de maio.

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