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Germain (Gerárd Depardieu) é um cinquentão semianalfabeto constantemente ridicularizado por conhecidos de mesa de bar por causa do vocabulário chulo e a quase ausente aptidão intelectual. Certo dia, no banco de um parque, conhece uma velhinha simpática e apaixonada por leitura, que o introduz aos poucos no universo mágico dos livros. Com isso, a visão de mundo e o traquejo social do “ogro francês” transformam-se aos poucos. A ideia de acompanhar a mudança paulatina de um personagem através do contato com outro indivíduo ou pela ação de algum ‘agente externo’ não é nova, mas Minhas Tardes com Margueritte, do diretor Jean Becker, que também assina o roteiro com Jean-Loup Dabadie, destaca-se com o script eficiente e belíssimos personagens, amparados pela competente participação do elenco.

A narrativa da obra apresenta estrutura linear com inserções abruptas de flashbacks, necessárias para ilustrar a infância difícil de Germain, que quando garoto era repreendido de forma humilhante pelo professor cada vez que errava na lição e maltratado pela mãe autoritária, fato este que perdura até hoje. Apesar da pequena quebra no ritmo narrativo, tais inserções não comprometem o fluxo como um todo, sólido graças ao roteiro coeso que se concentra na delicada construção dos personagens.



Tal fator, no entanto, seria improvável sem um bom elenco. E isso não falta. O imprescindível ‘material humano’ é louvável em Minhas Tardes com Margueritte. Concebendo um personagem que pelo conhecimento simplório articula certas palavras com dificuldade e apesar de ser rude no trato social cotidiano é extremamente afetuoso, Gerárd Depardieu esbanja talento em uma composição sensível e inteligente. A cena na qual Germain conversa com o gato de estimação enquanto tenta em vão procurar palavras e entender o sentido delas no dicionário é significativa para determinar as qualidades do ator. Os eficientes planos nas expressões do felino, aliás, são coerentes com a intencionalidade narrativa. É de se enxergar no animal a comoção com aquele indivíduo simplório e adorável.

A atriz Gisele Casadesus – com incríveis 96 anos – mantém o nível do parceiro de cena e ilustra com correção a simpaticíssima Margueritte, uma senhora cuja sobrinha negligente a internou em um asilo para idosos, e agora é uma espécie de ‘mãe adotiva’ para Germain. E é na troca afetiva entre eles que a obra encontra sua força maior. Sem o uso desnecessário e artificial de uma trilha sonora melosa, a direção extrai o sentimentalismo necessário com a fruição de diálogos inteligentes. Com pouco mais de 80 minutos, Minhas Tardes com Margueritte é um filme curto de duração, mas com mensagens que não escapam tão facilmente. Poético como os textos de Camus, a obra mostra que além da leitura e do acesso ao conhecimento formal, simplicidade e generosidade são qualidades de valor imensurável.



Minhas Tardes com Margueritte (La Tête en Friche) – 82 min
França2010
Direção: Jean Becker
Roteiro: Jean Becker, Jean-Loup Dabadie Baseado no livro de Marie-Sabine Roger
Elenco: Gérard Depardieu, Gisele Casadesus, Sophie Guillemin, Patrick Bouchitey

Estreia: 27 de maio.


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  1. Quero muito ver esse filme!

    Pena é que os filmes bons passem em tão poucas salas.

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  2. Consegui ver hoje!

    Não era só impressão, o filme é bom mesmo. Leve e muito agradável.

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  3. adorei, o filme fala sobre o que realmente importa na vida humana, relação com a família, amigos, amantes e novas pessoas que surgem em nossas vidas quando menos esperamos e nos abrem um novo universo. fala sobre "troca" no maior sentido, e enquanto tiver troca há união = amor. o filme fala sobre amor no sentido mais amplo e sobre as diferentes formas de amar. um dos filmes que faz vc parar pra pensar nas suas ações e consequentemente na sua vida.

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