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Solidão no meio da multidão. Numa leitura bem rasa, o clichê poderia ser aplicado a  Estamos Juntos, de Toni Venturi. O que o drama urbano faz, no entanto, é por em questão sentimentos como amor, desejo e amizade, numa trama que circula entre o real e o psicológico. A produção recebeu sete prêmios no 15º Cine PE Festival do Audiovisual, incluindo melhor filme, direção, roteiro (Hilton Lacerda) e atriz (Leandra Leal, dividido com Marisol Ribeiro, de Família Vende Tudo, de Alain Fresnot).

Carmem (Leandra Leal) é uma jovem médica que saiu de uma pequena cidade para estudar e trabalhar em São Paulo. Seu único amigo é o DJ Murilo (Cauã Reymond, de Não Se Pode Viver Sem Amor), gay assumido, que também veio do interior. Uma rotina dura no hospital, uma relação  amorosa frustrada com um homem casado e um certo vazio existencial fazem com que ela se volte para um relacionamento com um homem misterioso (Lee Taylor).

Numa rara escapada para curtir a agitada noite paulistana ao lado de Murilo, Carmem conhece Juan (Nazareno Casero), músico argentino com quem inicia um intenso romance. Ao mesmo tempo, envolve-se com o movimento dos sem-teto e passa a fazer um trabalho voluntário que lhe dá grande satisfação. Quando tudo parecia começar a fazer sentido, uma doença inesperada e grave tira seu equilíbrio e ela se vê forçada a reavaliar toda sua vida.  


Mais do que pano de fundo, São Paulo funciona como um espelho, que parece devolver de forma ampliada as angústias vividas pelos jovens. Assim, as luzes intensas da cidade são mostradas como estrelas no céu, numa poética inversão de perspectiva que, no entanto, não deixa de denunciar que algo está fora da ordem. Do mesmo modo, a metrópole que nunca dorme, habitada por gente do mundo todo, com diversão a qualquer hora do dia e da noite, parece não ter espaço para um grupo cada vez maior de pessoas que não veem outra alternativa senão invadir prédios vazios para ter um teto. Para isso, precisam se unir, se organizar, confiar uns nos outros.

O contraste entre as duas realidades é vivido de forma gradual pela personagem de Leandra Leal, numa interpretação que vai crescendo à medida que o drama se adensa. É como se ela vivesse num mundo de sonhos até ser despertada de forma violenta para o real. Se esse choque vem na forma de doença, quem lhe oferece uma possibilidade simbólica de cura é a comunidade sem-teto, liderada pela generosa e solidária, mas firme, Leonora, vivida de forma competente por Dira Paes. Cauã Reymond compõe o fútil e acelerado homossexual Murilo de forma geralmente convincente e até surpreendente, já que até aqui sua carreira foi construída principalmente por papéis estereotipados de galã.  

Um filme delicado, em que o não-dito muitas vezes significa mais do que o dito, pontuado por nuances sutis e valorizado pela bela fotografia de Lula Carvalho e o empenho do jovem elenco. Um destaque é a montagem, que constrói a narrativa de forma circular, num movimento de dentro para fora,  sublinhando de forma perfeita o processo vivido pela personagem principal.



Estamos Juntos – 95 min
Brasil – 2011
Direção: Toni Venturi
Roteiro: Hilton Lacerda
Com: Leandra Leal, Cauã Reymond, Nazareno Casero, Lee Taylor, Débora Duboc, Dira Paes

Estreia: 03 de junho.

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  1. Parece ser bom mesmo...

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  2. Por que filmes bons geralmente não aparecem nos cinemas de outras cidades?

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  3. NÃO ASSISTAM! É PÉSSIMO! Procuro ser otimista quanto ao cinema nacional e tenho gostado de muitos trabalhos que vi, porém esse é um filme que não nos prende, não possui objetividade. (e só lembrando essa é apenas minha opinião).

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  4. Não gostei. Esperava muito mais!

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  5. Eu gostei. É um bom drama psicológico.

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  6. Eu tenho visto muitos filmes brasileiros.
    Esse eu não gostei mesmo.
    Tem um bom argumento, mas que não se desenvolve...
    E a questão do Movimento dos sem teto fica completamente perdida no meio da história da Carmem. Não diz para o que veio.

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