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Walter Black sofre de depressão profunda. Quando expulso de casa por sua esposa, chega ao fundo do poço e tenta suicídio. Desde o prólogo, até o início do segundo ato, a bem humorada narração do terceiro longa de Jodie Foster como diretora a vencedora de 2 Oscar de Melhor Atriz já havia filmado Mentes que Brilham (1991) e Feriados em Família (1995) – parece contar detalhes de uma refinada comédia, mas com o desenrolar dos conflitos a história revela-se um denso drama psicológico (deixando as boas e recorrentes pitadas de comédia como recursos para quebrar o clima de tensão). 

Segundo dados da OMS, a depressão será a doença mais comum do mundo em 2030 e este mal da pós-modernidade é retratado com eficiência em The Beaver (no original), por intermédio da relação de uma família desestruturada. O ótimo roteiro do estreante Kyle Killen mostra os Black como pessoas amarguradas e infelizes. Enquanto Meredith (Jodie Foster) busca forças para mudar de vida, Walter (Mel Gibson, vencedor do Oscar de Melhor Diretor por Coração Valente, ótimo e convincente em um papel diferente dos que está acostumado) se entrega ao abatimento físico e psicológico. 

A relação da depressão com o insucesso profissional traz à tona a cultura norte-americana do self made man, que, implicitamente (ou não) influencia as pessoas à individualidade exacerbada, esquecendo-se de que ninguém vive (saudavelmente) sozinho. Por não honrar o lugar que herdou de seu falecido pai como diretor executivo de sua empresa, Walter se sente um loser. Sua deplorável situação só muda quando encontra no lixo um fantoche de mão em forma de castor. Como referência aos amigos imaginários das crianças, ele vê no Beaver um amigo de que tanto precisava.

Walter passa a fazer tudo com o novo amigo (até tomar banho) e passa a realizar uma espécie de autoanálise – falando por intermédio do castor. Com um sotaque inglês, passa a referir-se a si mesmo na terceira pessoa. A partir daí, encontra um novo sentido para sua vida, se reaproximando de sua família e revolucionando sua empresa à beira da falência (a crítica a livros de autoajuda é interessante). Meredith resolve dar uma nova chance para Walter, que passa a ter uma relação harmônica com seu filho mais novo, mas mantém a convivência conflituosa com o primogênito


Henry, o solitário caçula da família Black (o menino Riley Thomas Stewart, de 9 anos, muito bem em seu primeiro grande papel no cinema), sofre bullying na escola devido ao seu jeito retraído e com dificuldade em fazer amizades. Assim como seu pai, passa a ver na figura do castor seu melhor amigo. Já Porter (o promissor Anton Yelchin, de Alpha Dog) se incomoda com as similaridades que tem com seu pai e se mostra tão desequilibrado quanto ele. Bom em escrever, mas não em lidar com seus sentimentos, o filho mais velho do casal Black ganha dinheiro fazendo trabalhos acadêmicos para colegas de faculdade.

O rapaz demonstra na forma como se relaciona com a figura paterna aquela mudança de sentimentos tão comum na maneira do filho ver seu pai: quando criança sente admiração, tem no pai seu herói; já quando chega à adolescência vem a a rebeldia seguida de repulsa; e na vida adulta os sentimentos ruins da imaturidade dão lugar ao carinho e à preocupação – afinal, por mais que tenha defeitos (assim como todo ser humano), aquele é o homem que o colocou no mundo. Ao se interessar pela menina mais popular da universidade, Norah (Jennifer Lawrence, indicada ao Oscar 2011 de Melhor Atriz por seu papel em Inverno da Alma, com apenas 19 anos), Porter enfim encontra uma real motivação em sua vida.

A sensível direção de Jodie Foster demonstra como a relação familiar influencia no modo de viver, conviver com outras pessoas e ver o mundo. Mas Walter parece ter outro problema, além da depressão. Chega um ponto em que o Castor parece assumir sua personalidade e ele passa a lutar para tomar o controle da situação, literalmente – a cena "momento Clube da Luta" evidencia uma mórbida dupla personalidade de Walter. A redentora catarse apresenta uma mensagem honesta e realista, distante da hipocrisia mercadológica da autoajuda

Destaque para a inserção de Exit Music (For a Film), belíssima música do Radiohead, que reflete com perfeição o momento pelo qual Walter está passando. "Acorde de seu sono... Respire, continue respirando; não perca o controle", canta Thom Yorke. Walter deseja começar de novo e "para seguir em frente é preciso apagar o passado", assim pensa. Um Novo Despertar é um bom, e denso, retrato da depressão na pós-moderna sociedade capitalista e das formas de se lidar com ela, nem sempre muito saudáveis. Ótima supresa.




Um Novo Despertar (The Beaver) – 100 min
EUA – 2011
Direção: Jodie Foster
Roteiro: Kyle Killen
Elenco: Mel Gibson, Jodie Foster, Jennifer Lawrence, Anton Yelchin, Cherry Jones, Riley Thomas Stewart, Zachary Booth, Michael Rivera

Estreia: 27 de maio.


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Postar um comentário

  1. Essa ultima parte "depressão na pós-moderna sociedade capitalista" é um ponto crucial para entender o filme.

    Vemos as mentiras da sociedade capitalista, isso cria conflitos existenciais - é claro que nem todos tem essa depressão, talvez apenas uma pequena parcela de pessoas - o que desencadeia um estado depressivo.

    O principal é que não estamos fadados a teoria do humanitismo de Machado de Assis - Não somos seres a merce de um destino predatórios como sempre tem sido - Prova disso é o aumento de depressões uma vez que ela pode ser vista como aumento de inteligencia do ser humano.

    O grande mal que atinge nosso século diz respeito as relações sociais, que por sinal não são verdadeiras. As pessoas tem fé em Deus mas esquecem de ter fé no próximo.

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  2. Nunca tinha lido uma crítica sua Matheus, parabéns pelo trabalho. Muito bem escrita. Quanto ao filme, gostei bastante. Como você citou, uma bela surpresa.

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