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Adaptação da novela inglesa Moth, de Rose Tremain, Ricky finalmente chega aos cinemas brasileiros (a produção é de 2009). Escrito e dirigido por François Ozon (de O Amor em Cinco Tempos e Swimming Pool), Ricky conta a história de uma desestruturada família suburbana na França, que vive uma situação fantástica quando o bebê que dá nome ao filme desenvolve asas e passa a voar pela casa. O diretor francês é experiente em retratar personagens femininas (como se pode ver em Angel ou Oito Mulheres) e esse cuidado fica evidente ao apresentar Katie (Alexandra Lamy), mãe solteira que precisa segurar as pontas para criar Lisa (Mélusine Mayance), sua filha de sete anos. Carente e depressiva, a mulher trabalha numa fábrica e não parece ter muitos planos para seu futuro, enquanto a garotinha amadurece precocemente ao sentir que não pertence a uma família “normal”.

Ozon cria um clima de extremo naturalismo no primeiro ato, seja na falta de maquiagem e sensualidade de Katie, ou nas questões sociais implícitas, como o ambiente fabril, o bairro periférico onde mora a protagonista e até mesmo a imigração, quando a mulher conhece o espanhol Paco (Sergi López), um colega de trabalho. Não há romantismo nem glamour no casal. Esse clima de naturalismo vai aos poucos cedendo lugar à fantasia quando duas asas crescem nas costas do bebê Ricky, filho do casal. O clima surreal de um neném voador serve como válvula de escape para o drama dentro da casa: para a pequena Lisa, Paco não parece poder substituir o pai, que a abandonou anos atrás. Sua mãe também não tem lhe dado a devida atenção depois que passou a namorar o espanhol e ter outro filho. Já Katie, além dos problemas financeiros, volta a ser mãe solteira após acusar Paco de maltratar o bebê.

Essa alternância de tensão familiar e momentos de comicidade com o desenvolvimento dos cotos e primeiros voos de Ricky pontuam a proposta de Ozon em brincar com as sensações do espectador: na fase pré-penugem, as asas da criança lembravam as de um frango – que, minutos antes, Lisa saboreou no almoço –, o que causa uma certa repulsa. Já os passeios aéreos do bebê são dúbios: podem ser considerados tão engraçados quanto tensos. Basta se perguntar: a cena no parque é triste ou traz alívio? O realismo fantástico de Ricky não procura dar explicações, como mostra o misterioso prólogo, mas ficam evidentes algumas pistas dadas por Ozon, principalmente quando a pequena Lisa está em cena. Só faltou um pouco de cuidado com os efeitos especiais, mas nada que estrague este interessante filme.


 

Ricky (Ricky) – 90 min
França, Itália – 2009
Direção e Roteiro: François Ozon
Elenco: Alexandra Lamy, Sergi López, Mélusine Mayance, Arthur Peyret, André Wilms, Jean-Claude Bolle-Reddat, Julien Haurant, Eric Forterre, Hakim Romatif, John Arnold, Maryline Even

Estreia (SP): 21 de abril.

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  1. Neste filme Ozon se distancia de sua abordagem usual (embora não a renegue), centrada na misoginia e misantropia sob um registro cínico. Neste, apesar dos confrontos humanos e incompreensões, temos a opção pelo absurdo que remete a um gênero de utopia um tanto crítica à infantilização do cinema contemporâneo, mas que também resgata o princípio da imaginação soberana em contraponto à realidade crua. Interessante.

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  2. nossa minha irmã tambem chama rachel nunes! que legal!

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