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Mais do que um exercício de cinema surrealista e nonsense, o novo filme do cineasta chileno Jorge Durán (de Proibido Proibir) é a consolidação de Cauã Reymond (de Ódiquê?) como um ótimo ator de cinema, e não apenas um galã de novelas televisivas. Radicado no Rio de Janeiro há 38 anos, Durán escolheu em Não Se Pode Viver Sem Amor locações da cidade distantes da imagem turística carioca que costuma ser retratada em obras de ficção. O Centro, a Zona Portuária e o Morro da Conceição servem de paisagem para uma trama que alterna em seu roteiro nuances sobrenaturais com a crueza da natureza humana e da vida em sociedade.

A trama segue aquela fórmula – muito usada, mas não desgastada de três núcleos conflituais que em determinados momentos-chave se entrecruzam. A indefinição de um protagonista e a alternância de destaque dos personagens contribuem para a agilidade da história, que se passa em época de Natal (retratada sob uma perspectiva melancólica). Gabriel (o début do ator mirim Victor Navega Motta), uma criança sensitiva, e Roseli (Simone Spoladore, de Natimorto) deixam o interior do estado do Rio para procurar o pai do menino na capital e este fato irá mudar o rumo da vida de diversas pessoas, a princípio como um emaranhado de acontecimentos aparentemente desconexos, mas com fortíssimas ligações entre si, demonstradas a partir do segundo ato.

Nos outros núcleos estão João (Cauã Reymond), um jovem advogado desempregado, apaixonado por Gilda (Fabíula Nascimento, de Bruna Surfistinha) e desesperado para mudar sua vida; e Pedro (o ótimo Ângelo Antônio, de Sonhos Roubados), um pesquisador universitário, em dúvida entre manter sua família unida ou se mudar a trabalho para o exterior. Com exceção de Victor (talvez por sua inexperiência, em uma atuação  incomodamente artificial e dissonante dos outros atores), o desempenho do elenco é primoroso. Não é à toa que Simone Spoladore recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Gramado 2010 – o filme também levou, merecidamente, os prêmios de Roteiro e Fotografia.



A melancolia, o desespero, a angústia e a dúvida, apesar de darem espaço a densos conflitos, deixam no ar uma sensação de que o encontro destes personagens – ao mesmo tempo tão distantes e tão próximos traz a esperança de renascer neles o sentimento de que não se pode viver sem amor. Os diálogos entre Pedro e seu pai (Rogério Fróes, de Redentor) são excelentes e os conselhos paternos dotados de uma sensibilidade beneficiada pela experiência: "Só se ama de verdade uma vez na vida", diz Antonio para um filho atormentado por dúvidas. Já as cenas entre Pedro e João são carregadas de uma crescente tensão Cauã e Ângelo Antônio dão um show de interpretação.

O universo do mundo infantil, completamente à parte dos adultos, tem nas intervenções de Gabriel passagens oníricas, que interligam os personagens principais em um clímax brilhante, dirigido com competência e com a capacidade de fazer o espectador ficar aflito em sua poltrona, aguardando o desfecho da história. Também merecem destaque a imponência de uma cidade grande, vista pela primeira vez por uma criança, em um período de novidades e descobertas, e a experimentação artística conduzida por Jorge Durán, em uma valiosa obra, de orçamento modesto e distante do circuito mainstream.

Por: Mattheus Rocha



Não Se Pode Viver Sem Amor – 100 min
Brasil – 2009
Direção: Jorge Durán
Roteiro: Jorge Duran, Dani Patarra
Elenco: Cauã Reymond, Ângelo Antônio, Simone Spoladore, Fabíula Nascimento, Victor Navega Motta, Maria Ribeiro, Rogério Fróes, Babu Santana

Estreia: 06 de maio.

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