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Depois do documentário Música é Perfume (2005), sobre Maria Bethânia, o cineasta suíço Georges Gachot volta sua lente para outra musa da música popular brasileira, Nana Caymmi. Filha de Dorival Caymmi, Nana é o exemplo perfeito de uma cantora que alcançou respeito e admiração em todo o cenário musical nacional, porém nunca foi, efetivamente, uma artista da grande massa. É irônico que sua bela e poderosa voz já foi ouvida por diversas vezes e por todo o país, principalmente quando algumas de suas músicas foram temas das novelas globais, no entanto ela andaria como anônima pelas ruas, diferente de suas colegas cantoras.

Nana Caymmi em Rio Sonata tem a função de resgatar a importância da artista, em tom de reverência, mesmo. Diferente de produções que tentam humanizar uma personalidade, o documentário de Gachot faz um resgate de sua trajetória e busca por meio de depoimentos de artistas consagrados (como o ex-marido Gilberto Gil, Milton Nascimento, João Donato, Erasmo Carlos e Bethânia) situar Nana em condição de diva – ainda que haja momentos de simplicidade, como nas cenas de jogo de baralho ou quando ela brinca com a própria idade.

O grande problema do filme está justamente nos depoimentos que, ao longo de 84 minutos, parecem se repetir. A experiência só não se torna cansativa porque o longa é recheado de canções de Nana, seja em estúdio ou em apresentações ao vivo, desde as imagens de arquivo do Festival da Música Brasileira, de 1967, ao lado de Gil, e a performance com o mestre Tom Jobim em 1971, até aparições mais recentes, como na grandiosa interpretação da música Atrás da Porta, de Chico Buarque e Francis Hime

As belas imagens do Rio de Janeiro servem como cenário para as canções tristes de Nana e como metáfora sobre a própria cantora. Diferente da ensolarada Cidade Maravilhosa, o Rio do filme é cinzento, chuvoso e encoberto de neblina, escondendo seus principais cartões postais. Num mesmo paralelo, Nana sempre fugiu de movimentos e modismos musicais, buscando uma coerência na carreira – o que, talvez, tenha lhe custado um reconhecimento popular maior.




Rio Sonata retrata com sensibilidade a vida da grande cantora paralelamente a imagens do Rio de Janeiro. É como se a vida e as canções de Nana Caymmi se construíssem inspiradas em um Rio chuvoso e melancólico. O documentário traz relatos fragmentados de períodos distintos da vida da cantora e parece não se importar com a ordem cronológica. Nana fala de sua vida, família, carreira e sobre a cidade. Entre os depoimentos, a cantora mostra sua marcante voz. Percebe-se que cantoria faz parte da vida de Nana mesmo em momentos de descontração, quando em uma cena ela começa a entoar uma bela canção jogando baralho com amigos.

A relação familiar extremamente musical também é mostrada com depoimentos emocionantes do pai, Dorival Caymmi, e do irmão. Muito conhecida pelas canções que viraram trilha sonora de diversas novelas da Globo, a cantora conta como foi esse reconhecimento e sua relação com as novelas. A voz de Nana canta a história de personagens nas novelas, e dessa vez a voz da cantora cantou sua própria história.

O filme é, sem dúvida, uma bela homenagem de corpo presente a essa cantora tão importante para a música brasileira. Tem uma ambientação digna das músicas de Nana, com belíssima fotografia. Essa atmosfera melancólica dificilmente é usada quando trata-se do Rio de Janeiro e, por isso, essa escolha trouxe uma beleza nova e distinta às paisagens já conhecidas da cidade. No documentário, Nana Caymmi diz algo semelhante a “Eu vivi uma vida cercada de coisas belas”. Essa frase parece uma ilustração do enredo do filme, no qual reina a valorização das coisas belas.



Nana Caymmi em Rio Sonata (Rio Sonata) – 84 min
Suíça – 2010
Direção: Georges Gachot
Com: Gilberto Gil, Milton Nascimento, Antonio Carlos Jobim, Maria Bethânia, João Donato, Mart’nalia, Erasmo Carlos, Dorival Caymmi

Estreia: 21 de abril

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  1. É de total mau gosto a forma como Georges Gachot conduz o filme em que ele diz homenagear a Nana Caymmi. Ninguém pode achar isto que ele nos apresenta, uma homenagem. Os depoimentos são pésssimos, o roteiro é medíocre, a luz não existe e a fotografia é deprimente. Ainda para completar, ele consegue enfiar, com licença do termo, mas é o mais adequado para aquele depoimento infame da Mart´nália, que não faz o menor sentido no filme, pois não é possível fazer esta conexão. Além disto a Nana é filmada dentro de carros em movimento, com a câmera balançando, em dias de chuva, em engarrafamentos, em locações pobres, enfim, ele mostra tudo que o Rio tem de ruim. Fica difícil achar que isto é uma homenagem. Na verdade ele tem é inveja profunda de termos uma cantora como Nana. É uma pena.

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