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Amor depois da morte já foi tema de vários filmes de sucesso. A produção peruana Contracorrente (Contracorriente) inova ao retratar a relação entre dois homens, representados pelos atores Cristian Mercado e Manolo Cardona. Escrito e dirigido por Javier Fuentes-León, o filme conquistou cerca de 30 prêmios no mundo todo, e foi indicado para representar o Peru na disputa pelo Oscar 2011 de filme estrangeiro.

Miguel (Cristian Mercado) é um pescador em um povoado no Peru, onde goza de certa liderança entre os humildes moradores do local. Quando um companheiro morre, é ele o responsável por encomendar o corpo, cerimônia assistida por toda a população, já que segundo as tradições religiosas, se isso não for feito, o espírito ficará vagando pela terra. Rondando o lugar e tirando fotografias, está um forasteiro, Santiago (Manolo Cardona), alvo da desconfiança da população e amor secreto de Miguel.

Pressionado por Santiago para assumir a relação, Miguel não sabe o que fazer, já que a vila de pescadores é muito conservadora e ele é casado com Mariela (Tatiana Astengo), que está prestes a dar a luz. A morte de Santiago por afogamento e o desaparecimento de seu corpo parecem apontar para o fim do caso, mas a concretização do que preveem as crenças locais e a descoberta de quadros pintados por Santiago retratando Miguel podem revelar o segredo.

Filmado todo em locação, Contracorrente tira partido das belíssimas paisagens do litoral norte do Peru, onde o deserto e o oceano se encontram, servindo de cenário perfeito para o idílico romance. A contextualização, a partir da narrativa bem construída e da perfeita ambientação, fazem com que o tratamento naturalista dado a um tema sobrenatural torne a história totalmente crível. As interpretações sensíveis dos atores, principalmente o trio central, também colaboram para o excelente resultado. 



Para o espectador brasileiro, não há como não comparar Contracorrente com Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto. O tom, no entanto, é totalmente diferente. Além disso, a produção brasileira é uma comédia, a peruana é um drama. Outra referência ao Brasil é a novela que os personagens assistem, Direito de Nascer, exibida nos anos 80, e estrelada pelo falecido Lauro Corona. O estreante diretor Javier Fuentes-León admite a influência e afirma ter homenageado o filme brasileiro batizando de D. Flor a tia do protagonista.

O fato de ser uma produção que reúne financiamento de quatro países (Peru, Colômbia, França e Alemanha) e elenco multinacional (Peru, Colômbia, Bolívia) não dilui sua identidade eminentemente peruana e latino-americana, nem compromete seu caráter autoral. A incorporação de elementos próprios da cultura local valoriza a obra, mas não interfere na possibilidade de recepção por públicos diversos; pelo contrário, torna-se um atrativo a mais.

Pouco frequente nas telas brasileiras, o cinema peruano atravessa um ótimo momento, como demonstra Contracorrente. Em 2009, Claudia Llosa conquistou o Urso de Ouro de direção no Festival de Berlim por A Teta Assustada (La Teta Asustada), que foi premiado também nos festivais de Havana, Montreal, Lima e Guadalajara, além de ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro e ao Goya de melhor filme estrangeiro em linguá espanhola


Contracorrente - Trailer (legenda português) from Festival Filmes on Vimeo.

Contracorrente (Contracorriente) - 100 min

Peru, Colômbia, França, Alemanha - 2009

Direção e Roteiro: Javier Fuentes-León
Elenco: Cristian Mercado, Manolo Cardona, Tatiana Astengo

Estreia: 08 de abril.

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  1. Adorei o filme, não só trombamos com Jorge amado, (principalmente por causa de dona Flor e seus dois maridos, mas como toda a história de pescadores,) Gabriel García Márquez, Mario Vargas losa, Jorge Luis Borges e outros autores latinos da chamada literatura fantástica. Parabéns!

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  2. O filme e lindo, sensível, muitas referencias ao Brasil, o triângulo amoroso de Dona Flor e seus dois maridos com uma outra roupagem, a novela Direito de Nascer e ate mesmo uma referencia ao nome de uma personagem foi homenagem ao romance de Jorge Amado, o final surpreende, tocante...muitas lágrimas escorreram... vale muito a pena. Assisti ontem 8/4, na sala 5 do Arteplex Frei Caneca, o único senao ainda continua sendo as pessoas que resolvem bater papo, discutir relação ou mesmo falar da vida alheia durante a exibição do filme, tinha que desabafar.

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  3. contracorrente...
    o título já é um achado legal.
    espero que não demore a chegar por aqui (salvador), como costuma acontecer com produções como estas. mas como os de claudia llosa chegaram, acho que é só uma questão de tempo.
    do mesmo modo, espero que possamos passar a ver cada vez mais filmes "pouco frequentes nas telas brasileiras"...
    valeu a dica!

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