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Chuva torrencial em Buenos Aires. O fenômeno climático que atrapalha rotinas, no entanto, une duas pessoas necessitadas de alento. Após o esfacelamento de uma relação, Alma passa a morar no carro. Sozinha, não conversa com ninguém por mais de 10 minutos há um bom tempo. Roberto é um engenheiro espanhol, também solitário, que viaja para a capital argentina no intuito de encontrar o pai, de quem não tem notícias há 30 anos. Quando ambos se conhecem, a dinâmica de suas vidas ganha novos contornos. 

A sinopse sugere uma história humana, amparada na dedicada construção de personagens. E Chuva, da diretora Paula Hernandez, atenta por esta característica. A câmera com variação entre plano próximo e plano detalhe acompanha Alma nos momentos iniciais, ao escolher produtos em um supermercado e higienizar-se (de forma, digamos, relapsa) no banheiro do estabelecimento. 

O espectador de imediato se aproxima desta figura humana que denuncia ansiedade no seu semblante peculiar – Valeria Bertuccelli é excelente – e no ato repentino de abandonar o carro para comprar cigarros. Ponto para o roteiro, por aproximar o público da protagonista sem fazer o uso de artificialismos, como narração desmedida ou introdução longa e cansativa como tantas vezes se vê por aí. Com a mesma precisão, Roberto é apresentado à trama. No  inusitado encontro, o engenheiro invade o carro de Alma para fugir de um acontecimento explicado posteriormente na história, e após algum estranhamento a “química” é estabelecida. Sem delongas.

Nenhum deles parece disposto a contar detalhes da vida pessoal e existem vários segredos, ao menos inicialmente. Curiosamente por mais ‘estranho’ que um pareça ser em relação ao outro (e de fato são), naquele ‘microcosmo chuvoso’ são as pessoas mais próximas. Roberto só pode contar com Alma e vice-versa. Por outro lado, pode-se inferir que este encontro ampliou-lhes a capacidade de ‘auto-descoberta’ e a provável e triste constatação de que “Em uma cidade do tamanho de Buenos Aires estou sozinho, sem ter para onde ir, e a única pessoal pela qual me sinto a vontade para contar detalhes da minha vida é uma pessoa estranha”.


Prova disso é quando em raro momento descontraído no carro de Alma, ambos conversam sobre assuntos banais e Alma, de forma repentina, chora copiosamente sem explicar a motivação do ato. Roberto, por outro lado, não esclarece as razões pelas quais estava machucado quando conheceu a moça. Estranhos e íntimos. A intimidade entre estes dois ‘pólos’ vai se consolidando aos poucos, assim como o espectador começa a desvendar as nuances destes indivíduos.

Além da bela fotografia, que marca a tonalidade cinza típica dos dias chuvosos, Chuva acerta nos quesitos técnicos, com a direção de arte recheada de cenários coerentes com a lógica da história: o solitário quarto de hotel, a bela piscina com cenário de sol, no entanto triste e vazia; e uma Buenos Aires barulhenta e estressada, onde as pessoas não olham nos olhos, e os cortes rápidos impedem o foco em rostos anônimos.

Sem a pretensão de transformar-se em uma espécie de “estudo sobre o comportamento humano”, ou parecer algum tipo de (pseudo) tratado sociológico sobre “dois estranhos carentes que se cruzam” Chuva é um filme ‘pequeno’, um conto sobre dois ‘estranhos’, unidos pelo acaso, que descobrem afinidades. Belo Filme. Palmas para o cinema argentino, que mais uma vez revela uma obra madura, atenciosa e respeitosa para com seus personagens e principalmente com o público.

Por: Bruno Mendes  


Chuva (Lluvia) – 110 min
Argentina – 2008
Direção e Roteiro: Paula Hernandez
Com: Valeria Bertuccelli, Ernesto Alterio

Estreia: 13 de maio.

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Postar um comentário

  1. Penso um tanto diferentemente: este filme é um desdobramento mais comercial dos velhos (e ainda presentes...) filmes da "Crise Argentina". Não é ruim, mas fica aquém de seus anteriores e repisa muitos clichês da comédia dramática romântica, com o que perde os tons mais locais e se joga na aventura da captação das grandes platéias, creio que sem grande êxito. Mesmo assim, é aibda melhor que a grande maioria do cinema estadunidense, e merece ser visto, apesar de sua gramática que se perde no engarrafamento de Buenos Aires que, por vezes, parece percorrer as ruas de acesso ao Festival de Sundance...

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