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O grande desafio de um ator que vive um personagem que cai nas graças do grande público, tão marcante quanto o Capitão Nascimento de Tropa de Elite, é se despir deste papel em seus trabalhos sequentes. Wagner Moura tem em VIPs não apenas a chance de interpretar um personagem plural, um mosaico de personalidades, capaz de proporcionar a um bom ator a chance de exercitar sua arte, mas também de demonstrar sua versatilidade. E o faz com competência e perfeição. Não é à toa que venceu o prêmio de melhor ator no Festival do Rio 2010 (VIPs também ganhou os prêmios de melhor filme, ator coadjuvante para Jorge D'Elia e atriz coadjuvante para Gisele Fróes).

Desde jovem, Marcelo (Wagner Moura) tem dificuldades de desenvolver sua própria personalidade e se diverte imitando outras pessoas. Seu sonho é seguir a carreira de seu pai e se tornar piloto de avião. Para isso, foge da casa de sua mãe rumo a Cuiabá, mas é no Paraguai que o rapaz dará início à maior aventura de sua vida, cada vez mais se passando por pessoas diferentes e aplicando golpes, até fingir ser o filho do dono da companhia aéra Gol, em uma festa de carnaval no Recife. Mas, afinal, quem é esse cara? Bizarro, Dumont, Carrera, Renato Russo, Henrique Constantino, Juliano do PCC? Talvez nem mesmo Marcelo Nascimento da Rocha saiba.

Baseado no livro VIPs: Histórias Reais de um Mentiroso, de Mariana Caltabiano, o longa retrata as aventuras e desventuras de uma pessoa que não consegue diferenciar fantasia de realidade. Um prato cheio para psicólogos e para Wagner Moura, que se traveste fisica e psicologicamente a cada ponto de virada do ótimo roteiro de Braulio Mantovani (de Tropa de Elite 1 e 2) e Thiago Dottori, para viver nas telonas os devaneios de Marcelo, seu fascínio pela aviação e o desejo de não ser ele mesmo, como se sentisse preso em seu próprio corpo. 

VIPs lembra, e muito, Prenda-me se For Capaz (2002), no qual Leonardo DiCaprio interpreta o famoso golpista Frank Abagnale Jr., mas sem a presença marcante de um antagonista, vivido no filme de Spielberg por ninguém menos que Tom Hanks. Mas o fato de não ter aquela tensão protagonista vs. antagonista não desmerece o conflito de VIPs, pelo desenvolvimento ágil e cômico imprimido pela competente direção do estreante em longa-metragens Toniko Melo (da série Som e Fúria), além das excelentes atuações, com destaque para Gisele Fróes como Silvia e o argentino Jorge D'Elia como o patrão

Embaladas pela trilha sonora do consagrado Antônio Pinto (de Abril Despedaçado), que demonstra a versatilidade do compositor, as nuances conflituais da história real do personagem (ou personagens?) de Wagner Moura, narradas em flashback, alternam entre sua infância e juventude, a visão heróica que seu pai representa, os devaneios e os golpes engraçados como a entrevista ao programa do Amaury Jr. e perigosos como o trabalho com traficantes paraguaios e a investigação da Polícia Federal Brasileira. Por isso, VIPs acaba sendo um híbrido de drama familiar, comédia, suspense e aventura.

Narrativa e esteticamente, VIPs é um excelente filme e faz juz ao crescimento da produção cinematográfica brasileira. Ao mesmo tempo em que diverte, faz pensar. Mas, no fim, fica a incômoda sensação de que, não só no Brasil, mas no mundo, para ser famoso, admirado ou bem sucedido não é preciso mais do que ser talentoso na "arte" da mentira (vide o histórico abuso de atos ilegais que cercam o mundo político, financeiro, imobiliário, bélico, esportivo...).



VIPs – 95 min
Brasil – 2010
Direção: Toniko Melo
Roteiro: Braulio Mantovani, Thiago Dottori – Baseado no livro VIPs: Histórias Reais de um Mentiroso, de Mariana Caltabiano
Elenco: Wagner Moura, Gisele Fróes, Juliano Cazarré, Arieta Correa, Milhem Cortaz, Roger Gobeth, Jorge D'Elia

Estreia: 25 de março
Em cartaz no Festival do Rio 2011

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  1. Wagner Moura e suas incontáveis facetas! Só por ele fazer parte do elenco, já vale uma ida ao cinema.

    Ps: quando ele aparece com o cabelo escorrido, quase sobre a cara, lembra o Javier Bardem em Onde os Fracos Não tem Vez.

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  2. Até contrariando expectativas, VIPs resulta em um filme interessante. A má impressão inicial demora a se desfazer, porque todo o mau psicologismo, as frases feitas e o orientalismo estéril dos primeiros minutos sé se desfaz por completo bem perto do final do filme, quando só então percebemos que ele se deve não a um roteirista simplório, mas ao personagem que, complexo, recorre a frases de autoajuda para compor em si mesmo o outro que deve ser algo que ele não é: alguém.

    Essa é a principal característica do personagem (na verdade vítima de um tipo de doença psicológica): não ser ninguém. Diferente de algumas analogias com um personagem de um filme de Spielberg, Marcelo lembrou-me, de imediato, Macunaíma, o herói sem nenhum caráter MESMO. Somemos a ele pitadas de outros dois: o jardineiro que Peter Sellers faz em Muito Além do Jardim, e Zelig, de Woody Allen. Façamos uma salada e coloquemos esse personagem no Brasil, entre a esterilidade de um meio social em crise perpétua e a cultura das celebridades, que teremos este personificado por Wagner Moura.

    A dificuldade em superar os momentos iniciais do filme é recompensada quando o olhamos retrospectivamente, a partir de sua última e genial cena, como Marcelo pedindo a um policial que olho dentro de seu olho esquerdo e perceba se ele está ou não mentindo. A trajetória de menino de classe média baixa a piloto de traficante de drogas para, enfim, suposto filho de empresário de aviação, é contada através de um duplo ponto de vista: o personagem esquizofrênico em paralelo à sociedade igualmente esquizofrênica, de onde avulta o valor soberano da celebridade, esta obtida através do regime da farsa, seja ela hierarquicamente bem situada ou não.

    Entre o Zé Ninguém e o Alguém (“Você sabe com quem está falando?”) temos um micro retrato de uma sociedade doente; neste regime de coisas, a única solidariedade que Marcelo poderia esperar era a de outra personagem em compatível solidão, Sandra, cujo estado mental resulta de reversa rejeição ao mundo real, no qual ela se insere sob estado de embriaguez, enquanto ele, na busca fanática pela adequação ao “mundo real”, perde-se nele e em si mesmo, vítima de uma fantasia que é um pesadelo socialmente produzido, de onde ele só emerge quando perde seu nome.

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  3. o lgl nesse filme é que num tem muita senas de sexo quanto a outros filmes nacionais

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