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Restrepo foi um dos concorrentes de Lixo Extraordinário na disputa ao Oscar 2011 de melhor documentário, estatueta que acabou ficando com o favorito Trabalho Interno. Com direção corajosa, não só pela ousadia narrativa, mas, sobretudo, pela proximidade do perigoso combate entre forças militares estadunidenses e afegãs, o doc retrata o dia-a-dia dos militares que Tio Sam tanto precisa, alocados no Vale Korengal, um dos postos avançados mais perigosos do Afeganistão, batizado como Restrepo em homenagem ao soldado de primeira classe Juan S. Restrepo, morto em combate com apenas 20 anos de idade.

Com características totalmente experimentais, o filme, apesar de não tomar partido ou de ter intenções doutrinárias, levanta discussões, mas sem oferecer respostas. Cabe ao espectador juntar as peças – montadas de forma primorosa – e tirar suas conclusões pessoais. Os próprios militares fazem os questionamentos, que fortalecem suas dúvidas e incertezas, trazidas à tona por uma rotina desgastante – física e psicologicamente –, em um lugar ermo e miserável, convivendo todos os dias com a iminência da morte, durante 15 longos meses. 

São jovens adultos, alguns com feições de adolescentes, que não sabem o que estavam fazendo na guerra e, por seu discurso, não têm uma consistente motivação política ou ideológica, apesar do velho clichê levantado por um soldado, de que "ele lutava por seu país". A intenção do governo estadunidense ao invadir o Afeganistão, travestida de revanchismo, mas demonstrada apenas com seus interesses econômico-políticos, e questionada pelas incertezas de ser realmente a Al-Qaeda responsável pelo atentado ao World Trade Center, é uma discussão que não interessa a quem precisa lutar diariamente pela sobrevivência.

Por isso a decisão dos diretores Tim Hetherington e Sebastian Junger de não levantar um debate político, mas apenas captar a experiência de combate dos militares, os humanizando e revelando suas fraquezas, medos, momentos de tédio, saudade e luto, os aproximando do público e os despindo da imagem de heroísmo que o cinema de ficção costuma atribuir aos soldados estadunidenses. A realidade nua e crua da guerra e suas consequências psicológicas nos sobreviventes é retratada pelas lentes de uma câmera que invade a intimidade do pelotão.


Enquanto alguns soldados contam os segundos para deixarem aquele lugar e exprimem a saudade de casa, das esposas e dos familiares, amplificada pelo sentimento de que talvez nunca mais os vejam, o fascínio pela violência, que parece ser inerente ao ser humano, aflora em outros. Em uma das entrevistas, um dos militares admite que se diverte com o perigo, como se a guerra fosse jogar um videogame real, e compara a adrenalina de um tiroteio ao vício em crack. A experiência traumática de combate parece ter efeitos opostos, de acordo com a personalidade de cada pessoa. 

As entrevistas com o capitão Dan Kearney, de 29 anos, e alguns de seus sargentos e especialistas, com média de idade de 28 anos, foram feitas durante, e após, a passagem pelo Vale Korengal. A tensão de poderem ser atacados a qualquer momento pelo Talibã, além do convívio com a morte, parecem ter ficado incrustados na alma destas pessoas. Mas não foram só militares que sofreram as consequências. Como em toda guerra, civis também foram mortos e feridos, inclusive crianças. Se alguns soldados se questionam como irão se tratar psicologicamente após o trauma do combate, fica a questão: como pessoas que tiveram suas casas invadidas e suas famílias destruídas serão tratadas?

Se esta dúvida permanece, fica a certeza de que a força bélica infundida pelos EUA é proveniente de fundamentalismo tão ou mais rigoroso quanto o atribuído ao Islã. No contato com habitantes locais, apesar da tentativa de obter apoio e aceitação, fica clara a posição do exército estadunidense, representada pelas palavras do capitão Dan Kearney: "Eu não me importo". Em 2010, os EUA saíram de Korengal e, se pensarmos que os soldados estavam ali com o objetivo simplório de proteger os trabalhadores que construíam uma estrada pavimentada, as 50 mortes em combate podem ter sido em vão?

Jovens perderam suas vidas, filhos perderam seus pais, esposas perderam seus maridos, pais perderam seus filhos... Historicamente, o ser humano vive em guerra, em constante conflito. As diferenças culturais, religiosas, políticas, ideológicas, de cor e de orientação sexual explodem em intolerância e incompreensão. A gana pelo dinheiro, por expansão territorial, por títulos de nobreza, tronos ou cargos políticos é acompanhada de sangue, traições e mortes (retratada, em seus inúmeros capítulos, à exaustão pelo cinema). E é interessante e enriquecedor ver um estudo psicológico e corajoso como Restrepo, que foge aos padrões da abordagem cinematográfica mainstream.  


Restrepo é um documentário em que o fotógrafo Tim Hetherington e o jornalista Sebastian Junger acompanham a permanência de 15 meses de um pelotão do exército norte-americano na base do vale Korengal, no Afeganistão. A dupla de criadores, que em 2010 ganhou o prêmio de melhor documentário em Sundance, não chega a aparecer, e a câmera age durante os acontecimentos como se fosse o olhar de mais um dos integrantes do pelotão. Dessa forma, quem assiste ao trabalho passa por uma verdadeira experiência de imersão. No entanto, Restrepo não chega a mostrar cenas fortes de feridos. O documentário transmite melhor o sentimento de stress local, por intermédio das conversas dos soldados na retaguarda, e de alguns relatos posteriores que são intercalados na narrativa. 

Com um talento digno de fotógrafo da National Geographic, Hetherington consegue deixar bem evidente a beleza de uma região tão inóspita. Em algumas imagens das montanhas ou da vila local, fica difícil acreditar que esteja realmente ocorrendo um conflito, e que aquele seja considerado o mais perigoso dos locais, para muitos. Em algumas cenas em que os soldados entram em contato direto com os civis de Korengal, que talvez sejam as melhores do filme, os detalhes de comportamento dos afegãos são valorizados nas imagens e o sentimento de imersão é ainda maior. Outro grande trunfo do documentário é conseguir mostrar muito bem a simplicidade dos soldados de Restrepo, que não passam de pessoas comuns, e a alegria quase adolescente que possuem e usam para encarar sua situação arriscada.

A guerra de Restrepo é muito diferente daquelas que nos acostumamos a ver, em imagens fictícias ou não, do Vietnã e da 2ª Guerra. Aqui, o inimigo não tem rosto e só se faz presente através de relatos e do som das balas. Uma geração diferente de soldados luta em uma guerra muito mais tecnológica, e aparentemente acabam por sofrer menos psicologicamente que a geração de seus pais e avôs. Uma das pessoas de destaque em Restrepo, o capitão Dan Kearney, mostra que seu pelotão possui uma preocupação social bastante louvável com a vila local, mas fica claro que seus antecessores no vale Korengal nem sempre adotaram a mesma postura. Depois de inúmeras tentativas do capitão de transformar os habitantes locais em seus aliados, percebe-se que os conflitos no Afeganistão são de uma complexidade cuja resolução está aquém da simples presença militar.
 

Estreia: 11 de março.

Restrepo (Restrepo) – 94 min
EUA – 2010
Direção: Tim Hetherington, Sebastian Junger
Com: Juan Restrepo, Dan Kearney, LaMonta Caldwell, Aron Hijar, Misha Pemble-Belkin, Miguel Cortez, Sterling Jones, Brendan O'Byrne, Joshua McDonough, Kyle Steiner, Angel Toves, Mark Patterson, Stephen Gillespie, Marc Solowski, Kevin Rice, Tanner Sichter, William Ostlund 


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  1. Tenho uma visão um pouco radical sobre o assunto.
    Os americanos são belissistas de berço, é formado esta loucura na cabeça das pessoas, de que elas são os guardiões dos valores humanos. Entra em conflitos que não lhes dizem respeito, sofrem, fazem filme sobre o assunto, e finalmente acabam ganhando muito dinheiro com as estórias. Não dá pra incentivar estas besteiras.
    Uma história humana e provocativa como Lixo Extraordinário acaba sendo deixada de lado.

    Atenciosamente
    Renato Bellucci

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  2. Só pra constar, o Tim Hetherington (fotógrafo) morreu alguns meses depois do filme, cobrindo o conflito na Líbia entre o Muammar Kadhafi e os rebeldes.

    http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/cinema/indicado+ao+oscar+diretor+de+restrepo+e+morto+na+libia/n1300091905835.html

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