0

Natimorto consegue gerar tensão desde suas primeiras imagens e, durante seu desenrolar, desperta sensações que vão da claustrofobia ao desespero. Conforme o filme avança, o espectador assiste a uma relação entre dois adultos que se desenvolve como uma panela de pressão prestes a explodir a qualquer momento. Antes de outras impressões, é importante dizer que Natimorto é um filme bastante autoral, já que é feito a partir do livro de mesmo nome escrito por Lourenço Mutarelli, o mesmo que atua no papel principal. É inegável sua influência na adaptação do romance para roteiro e direção, comandada por Paulo Machline (do curta Uma História de Futebol, indicado ao Oscar em 2000).

Um agente musical (Mutarelli, escritor de O Cheiro do Ralo) recebe uma bela cantora em São Paulo (Simone Spoladore, de O Ano em Que Meus Pais Sairam de Férias), com a promessa de apresentá-la a um importante maestro amigo seu, que a lançaria na carreira musical. Após pegá-la na rodoviária e levá-la a seu quarto de hotel, o agente, não sem bastante dificuldade de se fazer entender, faz uma proposta à garota de que ambos permaneçam vivendo ali dentro sem a necessidade de encarar o mundo exterior novamente. Com alguma relutância da cantora, ambos chegam a um acordo segundo o qual apenas o agente permanece em tempo integral no quarto, sem sair e, principalmente, sem dar nenhuma notícia à sua esposa (Betty Gofman), que surge no filme através de vários flashbacks de uma ocasião bastante conflituosa na qual os três estiveram reunidos.



Nesse acordo, o agente faz questão de deixar claro ser assexuado e a garota por quem exerce uma admiração platônica fica incumbida de cantar, enquanto ele tem a função de contar histórias que marcaram sua vida. Ambos os personagens fumam constantemente, e o ponto alto do filme são os paralelos traçados entre as imagens de advertência do Ministério da Saúde no verso dos maços e as cartas de tarô lidas por sua tia na infância. Ao comprarem um maço para cada todas as manhãs, o agente lê a sorte de cada dia para ambos nas fortes imagens de efeitos colaterais, e, a partir dessas interpretações, diversos temas são discutidos, enquanto a convivência passa a ser mais dificultosa a cada dia.

O filme demonstra qualidade na direção de arte e fotografia, que se destacam em diversos momentos, como quando o carpete do quarto sofre influência das luzes noturnas que invadem a janela, e outros detalhes que tornam ainda mais intensa a sensação de desconforto ao assistir a película. Em contraste, Natimorto apresenta personagens e atuações nem sempre verossímeis ou convincentes. Em muitos momentos, falas, reações e atitudes surgem e desaparecem de forma não natural, passando uma impressão um pouco pretensiosa da humanidade, por intermédio de discussões filosóficas propostas pelo roteiro. Estreia: 29 de abril.



Natimorto – 92 min
Brasil – 2009

Direção: Paulo Machline
Roteiro: André Pinho
Adaptado do livro O Natimorto, Um Musical Silencioso, de Lourenço Mutarelli
Com: Simone Spoladore, Lourenço Mutarelli, Betty Gofman, Nasi (narração)



Compartilhe este conteúdo |

O Cinema está na Rede e também no Twitter

Postar um comentário

 
Top