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Qual o propósito da vida? Vale a pena viver sabendo que a vida é tão curta? E se já soubéssemos por que estamos aqui e quanto tempo viveremos, seríamos mais ou menos felizes?  Estas questões nos ocorrem quando assistimos ao filme de ficção científica Não Me Abandone Jamais, de Mark Romanek, estrelado por Carey Mulligan, Keira Knigthley e Andrew Garfield.  Baseado no romance homônimo do britânico de origem japonesa Kazuo Ishiguro, autor também de Vestígios do Dia (Remains of the Day) e do roteiro de A Condessa Branca (The White Countess), ambos dirigidos por James Ivory, o filme provoca um certo incômodo ao levantar questionamentos que a maioria das pessoas prefere evitar.  

Kathy (Carey Mulligan), Tommy (Andrew Garfield) e Ruth (Keira Knightley) passam a infância em Hailsham, na Inglaterra, um colégio interno isolado e rígido. Os três são muito unidos, apesar dos acessos de raiva que Tommy tem de vez em quando. Em meio a histórias pavorosas sobre crianças que fogem da escola, eles são solicitados a pintar, desenhar, atuar, enfim, produzir diversos tipos de arte. Um dia, descobrem por intermédio de uma professora que por isso acaba sendo despedida, o porquê de estarem ali: foram concebidos para se tornarem doadores de órgãos.

Mais tarde, já adolescentes, são transferidos para uma fazenda, onde têm mais liberdade. Um casal de doadores diz que viu uma mulher parecida com Ruth, criando a expectativa de encontrar sua origem, o que se mostra infundado e acaba deixando-os ainda mais conscientes de seu futuro.  Tommy e Ruth acabam se envolvendo romanticamente, para tristeza de Kathy. Por isso, ela resolve ser cuidadora, ou seja, aquela que dá assistência aos doadores; uma forma de adiar seu destino e de se afastar dos dois. 

Muitos anos depois, Kathy reencontra Ruth, que apresenta a saúde prejudicada pelas duas doações feitas. Ruth sugere a reunião dos antigos amigos e se desculpa por ter afastado Tommy de Kathy, fazendo-os reviver a antiga e não-realizada paixão. A esperança de uma vida mais longa e feliz surge no horizonte, mas tudo se desfaz quando eles são obrigados a voltar ao passado e entendem a razão da arte produzida por eles: provar que têm alma.

A narrativa seca, uma forma de evitar o melodrama, não afasta o tom melancólico. Há um certo maneirismo em algumas sequências, como quando dá um close up em algum objeto, ou, ao contrário, quando mostra, por longo tempo, planos abertos.  A aparente passividade dos personagens, talvez explicada pela origem do autor do romance, provoca certa incredulidade. Os três atores, embora jovens, seguram bem o enfoque quase exclusivo, principalmente Carey Mulligan, a narradora.  Com uma história surpreendente, abordada de forma peculiar, Não Me Abandone Jamais tem o mérito de nos fazer refletir sobre a vida e seu fim




Não Me Abandone Jamais (Never Let Me Go) – 103 min
Reino Unido, EUA – 2010
Direção: Mark Romanek
Roteiro: Alex Garland – Baseado no romance de Kazuo Ishiguro
Com: Keira Knightley, Andrew Garfield, Carey Mulligan, Charlotte Rampling, Nathalie Richards, Sally Hawkings

Estreia: 18 de março.

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  1. Viver não é bem a questão. Imagine passar a vida sem estar ao lado de quem realmente te faz bem,alguém que te faz brilhar os olhos, sorrir fácil e largo te faz viajar sem sair do lugar e amar sem esperar.O NÃO ME ABANDONE JAMAIS fala de algo além da vida. Diz viva para o próximo sofra por ti mesmo, pois quem sabe um dia você encontrara a felicidade que te faria da vida algo mais fácil de ser vivida.
    KNC.

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  2. Muito bom o filme. Acredito que este altruísmo é disfarçado.Pois em várias partes do filme podemos observar um descontentamento com tal situação

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  3. Desculpem, mas achei esta crítica tão burocrática... O filme é muito mais transparente e misterioso do que isso. Quem o assiste não percebe a realidade logo no comentário da professora, pois é tudo muito sutil para ser levado na literalidade... E, concordo: o filme é uma obra prima.

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