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Espadachim habilidoso, poeta inspirado e conquistador irresistível: assim é retratado Félix Lope de Vega y Carpio (1562-1635) na co-produção brasileiro-espanhola Lope, dirigida por Andrucha Waddington (de Eu, Tu, Eles e Casa de Areia). Superprodução com orçamento de 13 milhões de euros (cerca de R$ 30 milhões), Lope estreou em setembro de 2010 na Espanha, onde dividiu a crítica, que implicou com a escalação de um ator argentino (Alberto Ammann) como protagonista. Foi candidato a candidato ao Oscar de Filme Estrangeiro, mas acabou derrotado por También la Lluvia, de Icíar Bollaín, protagonizado por Gael García Bernal, que acabou não sendo selecionado para a final do prêmio.

Considerado um dos maiores escritores em língua espanhola de todos os tempos e o mais profílico do mundo, com mais de 3.000 sonetos, centenas de comédias e várias novelas, pouco se conhece de sua vida, o que permitiu aos roteiristas abusar da imaginação para recriar sua vida nas telas. A história se passa em fins do século 16, quando o jovem Lope de Vega (Alberto Ammann) volta da guerra no arquipélago dos Açores com a intenção de se fixar em Madri.  Com a morte da mãe e as dificuldades financeiras, Lope se sente perdido. Tem, porém, duas certezas: nunca mais lutará em uma guerra e, de alguma maneira, vai vencer na vida.



Atraído pelas comédias populares encenadas na época, descobre nas letras sua vocação e passa a escrever compulsivamente. Num mundo em veloz mudança, Lope parece estar a frente do seu tempo e, através de suas obras, expressa sua rebeldia propondo novas formas teatrais, inicialmente rejeitadas, mas logo abraçadas pelo público. Ganhando cada vez mais notoriedade, Lope se envolve com a liberal Elena Osorio (Pilar López de Ayala) filha do mais importante diretor de teatro da cidade, que se tornaria uma espécie de mecenas do dramaturgo. Desperta também o interesse da sonhadora Isabel de Urbina (Leonor Watling). As duas passam a ser suas musas e razão de conflitos, que o farão perder tudo que havia conquistado e voltar ao ponto de partida: a guerra.  

Misto de épico e drama histórico, alternando bons momentos as cenas de ação são dinâmicas e o triângulo amoroso funciona bem , com outros nem tanto os planos fechados denunciam a influência televisiva , Lope parece uma tentativa de tornar pop um artista clássico. Por um lado, o desafio é vencido: o espectador sai da sala de projeção com desejo de conhecer melhor a obra do escritor. Por outro, o peso do ícone parece dificultar a ambiciosa e arriscada tarefa a que se propõe o diretor brasileiro. Merecem destaque a direção de arte, com esmerada ambientação histórica, apoiada em excelentes maquiagem e guarda-roupa, e a atuação do elenco. De quebra, o filme se encerra com a bela canção Que el soneto nos tome por sorpresa, composta e interpretada pelo uruguaio Jorge Drexler. Estreia: 04 de março.

Lope – 105 min
Brasil, Espanha – 2010
Direção: Andrucha Waddington
Roteiro: Jordi Gasull, Ignacio del Moral
Com: Alberto Ammann, Leonor Watling, Pilar López de Ayala, Juan Diego, Luis Tosar, Antonio de la Torre, Selton Mello, Miguel Ángel Muñoz, Sonia Braga, Jordi Dauder, Antonio Dechent, Mariano Venancio, Ramon Pujol




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  1. Por coincidência, vi o clip da canção do Drexler hoje e, como de costume, adorei. Com a crítica agora, deu mesmo vontade de ver o filme.

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  2. Há decerto um problema com os planos mais fechados; isso, porém, pode não se dever somente à estética televisiva, mas também à redução de custos; ademais, closes em rostos, olhos e demais partes do corpo humano também são encontrados em filmes de Godard, para dar um exemplo de cinema não comercial por excelência.

    O problema em Lope é a ligeireza com que trata uma obra prolífica até em excesso, em contraponto com uma vida aventurosa também em excesso. Lope de Vega, mais simplesmente, talvez não caiba simplesmente no formato cinematográfico. Uma biografia crítica dele teria o mesmo problema, se percorresse sua imensa obra. Resta escolher um intervalo dado (retorno de uma guerra e às pretensões literárias postas temporariamente de lado, desdobramento imediato dessas novas pretensões ao lado das relações sociais e amorosas) e fazer o melhor possível, de acordo com os recursos disponíveis, inclusive no que se refere aos talentos empregados na direção, representação, fotografia, vestuário, etc.

    Isso dito, o filme resultou correto, no limite de suas próprias intenções comerciais com um levíssimo verniz artístico, emprestado, na maioria das vezes, da própria obra de Vega.

    É, como foi assinalado, um estímulo ao conhecimento da fonte primária - a mui extensa obra do escritor espanhol. Talvez essa seja sua maior virtude, entre outras que existem, porém são muito menores, na medida da razoabilidade.

    Recomenda-se, assim, este filme, não como obra de um artista, mas como obra sobre um artista. É o quanto parece bastar.

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  3. Minha primeira visita. Li e gostei bastante do texto e das intervenções dos leitores. Muito bem vinda a iniciativa nestes tempos em que se dedica pouco espaço para o necessário exercício crítico. Parabéns ao Cinema na Rede e ao Gilson Carvalho. Voltarei mais vezes.

    Ainda não vi o filme, mas se - a despeito das eventuais pretensões comerciais apontadas por Rachel - ele provocar umas quantas visitas à obra de Lope já terá valido...

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  4. Excelente comentário, Rachel. Concordo com tudo o que você disse. Só acho que neste caso específico, certos enquadramentos são realmente influência da TV, o que é compreensível diante da força avassaladora desse veículo, onde o diretor tem atuado com bastante competência. O importante, como você pontuou, é que o filme joga luz sobre a obra de Lope de Vega, de um modo correto e divertido. Obrigado e abraço.

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  5. Parabéns aos atores, diretor e produção pelo cuidado histórico em apresentar no cimema esta historia de paixão criativa e libertação.
    E pela crítica ao mecenato comercio-cultural ou a formas de se prostituir a expressão e produção cultural. Filme linear e surpreendente no desfecho.
    Jose Carlos Meirelles

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  6. Absolutamente uma perfeição d'arte.
    Nossos melhores cumprimentos pela excelente publicação.

    Um abraço

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