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Não é um documentário, mas também não é ficção. O novo longa de João Jardim tem formato de documentário, porém é interpretado por atores. O diretor fez essa escolha para preservar a identidade dos entrevistados e dos envolvidos em suas histórias. Esse formato trouxe ao filme um aspecto novo e fascinante. O enredo traz diversas histórias sobre amor permeado pela violência, com sentimentos de paixão, culpa, ódio e traição.

Em todos os depoimentos é possível notar uma tênue linha entre o amor e os atos violentos, por isso o título carrega uma interrogação no final. Amor? nos leva a inúmeros questionamentos, trazendo um reconhecimento daquele que o assiste, que por vezes já sentiu o mesmo que os “personagens”. O processo de pesquisa feito em delegacias e entidades assistenciais recolheu 50 entrevistas e dessas apenas oito foram selecionadas para serem retratadas.

Os depoimentos são entremeados por belíssimas cenas repletas de azul e poema, nas quais vemos a ótima fotografia de Heloísa Passos. Tais cenas são enriquecidas pela trilha sonora de Lenine, que traz músicas clássicas para se tratar de amor. Essas cenas dão um ar de certo alívio entre os depoimentos, um momento para reflexão e aproximação.

O grande trunfo de Amor? é, sem dúvida nenhuma, o incrível elenco. Cada um dos atores apresenta um desempenho impecável, especialmente Lilia Cabral, que já no início do filme nos chama atenção para a cativante história de sua personagem. O mais impressionante é que não houve um processo de pesquisa de personagem por opção do diretor, que buscou uma atuação desprendida, que preza pela aproximação ator e personagem.




Durante o período pré-Oscar, muito se falou sobre o documentário Lixo Extraordinário, sobre o artista plástico Vik Muniz e o trabalho dos catadores de lixo do aterro sanitário de Gramacho, no Rio de Janeiro, mas pouca atenção foi dada a João Jardim, um dos diretores do filme (ao lado de Lucy Walker e Karen Harley). Esse cenário deve mudar com a estreia de Amor?, seu novo trabalho, vencedor do prêmio do júri popular no Festival de Brasília de 2010. O filme apresenta oito casos de relacionamentos amorosos que trazem a violência em seu núcleo, levantando questões sobre dependência afetiva, ciúme patológico e ausência de autoestima.

A grande sacada, no entanto, está em seu formato: todos os depoimentos do longa-metragem são reais, baseados numa extensa pesquisa feita em delegacias e entidades assistenciais, porém interpretados por atores bastante conhecidos, como Lilia Cabral, Eduardo Moscovis e Julia Lemmertz. O recurso, que acaba transformando a produção num híbrido de documentário e ficção, não é exatamente uma novidade (Eduardo Coutinho já havia feito algo relativamente semelhante com o interessante Jogo de Cena; já o indicado ao Oscar Valsa com Bashir, do israelense Ari Folman, trata-se de um documentário em animação), mas foi utilizado por uma questão técnica: como as histórias narradas tratavam de um assunto extremamente delicado e íntimo – a violência doméstica –, seria preciso a autorização dos parceiros, o que provavelmente não aconteceria. 

O incômodo inicial por sabermos que tudo dito na tela é ensaiado se desfaz rapidamente por conta da poderosa e visceral interpretação dos atores e pelo fato de que todo o texto é real e se trata de um assunto muito comum e familiar – presente nas páginas de jornais (“caso Eloá”; “caso goleiro Bruno” etc.) e nos programas televisivos populares. João Jardim levanta questões freudianas (crianças que presenciaram a violência entre seus pais também se tornam adultos violentos?) e se pergunta por que alguém mantém um relacionamento que alterna brutalidade e carinho. A resposta poderia ser a dependência afetiva, como no caso da mulher que apaixonou-se novamente pelo marido após ser agredida, ou então a escassez da autoestima, caso do  agressor que acredita estar num relacionamento estável depois de um passado violento, porém acaba fazendo a entrevista com sua companheira escutando tudo pelo celular. 
  
No fim, não há respostas, apenas perguntas, como fica claro no próprio título. Mas, em meio aos closes dos gestuais e dos enquadramentos de perfis (típicos de um documentário tradicional) Jardim deixa algumas pistas, com diversas imagens poéticas e metafóricas ao longo do filme: a garota que fica o máximo de tempo possível embaixo d’água; a agulha que perfura a pele sem machucar profundamente; ou a laranja, possivelmente um símbolo melhor para o amor do que a maçã, por ser um fruto doce e, ao mesmo tempo, ácido, assim como o amor. Mas será que é amor?


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Amor? – 100 min
Brasil – 2010
Direção e Roteiro: João Jardim
Elenco: Lilia Cabral, Eduardo Moskovis, Leticia Collin, Cláudio Jaborandy, Silvia Lourenço, Fabiula Nascimento, Mariana Lima, Ângelo Antônio, Julia Lemmertz

Estreia: 15 de abril.


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