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O que será de nozes?

Crítica - Trabalho Interno

17 de fevereiro de 2011




Após o 11 de Setembro, o cinema norteamericano lançou, em curto período, alguns filmes com temáticas críticas em relação à política instaurada no país, como Syriana, O Senhor das Armas e o polêmico documentário Fahrenheit 11 de Setembro, do verborrágico Michael Moore. O colapso financeiro de 2008 é o tema da mais recente obra “crítica e com pretensões “incendiárias” da terra do Tio Sam (Tio Patinhas seria mais apropriado nesse caso, aliás). O documentário Trabalho Interno, de Charles Ferguson, analisa de forma pormenorizada a gênese, o desenvolvimento e as consequências da crise que abalou o mercado financeiro em escala global e custou ao mundo aproximadamente 20 trilhões de dólares.

Favorito ao Oscar 2011 de Melhor Documentário, o longa é minucioso e claro na forma de apresentar um tema difícil aos leigos do “economês”, mas erra no tom maniqueísta, além do exagero no didatismo em alguns pontos. Esclarecedor e correto, o longa poderia ter ido mais longe, ter ousado dentro das possibilidades do formato. Não deixa de ser, no entanto, um filme necessário.

Inicialmente apresentando belíssimas imagens da Islândia, país rico, em que as instituições funcionam e o Índice de Desenvolvimento Humano figura entre os mais elevados do mundo, o documentário escancara o caráter global da crise ao mostrar neste prólogo o quanto a privatização de bancos locais e a desregulamentação financeira provocou crises no país, ao passo que banqueiros da ilha tornavam-se cada vez mais ricos. A culpa é dos banqueiros, claro



Eis a ideia que o roteiro explora na apresentação de entrevistas com executivos de instituições financeiras responsáveis pelo caos, como Lehman Brothers, AIG, dentre outras. Na linha combatente de Michael Moore, o diretor Charles Ferguson deixa entrevistados constrangidos e irritados com perguntas bem endossadas. Menos panfletário que Moore, Ferguson, ao aparecer menos em cena, confere um ar menos presunçoso ao projeto, fato positivo.

Certo maniqueísmo, em contra partida, limita a obra. A culpa de donos de bancos de investimentos que iludiram mutuários com promessas de crédito para a hipoteca de imóveis, é inquestionável. O filme, por outro lado, falha ao não oferecer enfoque ao consumo exacerbado do cidadão médio norteamericano. A população suscetível aos bens de consumo, que não poupa suas reservas e se endivida para adquirir casas e automóveis, tem responsabilidade na formação da “bolha”, cujo estouro provoca consequências desastrosas. O consumismo sem limites da população norteamericana, e da sociedade capitalista como um todo, deveria ser analisado com mais propriedade no filme. Não foi.

O exagero no didatismo ao apresentar dados importantes em infográficos simples (a representação gráfica lembra a de um telejornal modesto) cansa, em certo momento. Pelo tema espinhoso, no entanto, o ritmo é adequado, apesar do pequeno equívoco. Longe de ser um marco do gênero filme-denúncia, Trabalho Interno é uma obra necessária, por apresentar o poder avassalador do sistema financeiro norteamericano, que corrompe instituições políticas e onde os banqueiros evitam atitudes profiláticas para eventuais crises, em prol dos próprios interesses. O recado é dado. Algo precisa ser feito. Estreia: 18 de fevereiro.

Trabalho Interno (Inside Job) – 120 min
EUA – 2010
Direção: Charles Ferguson
Roteiro: Chad Beck, Adam Bolt 
Narração: Matt Damon
Com: Daniel Alpert, John Campbell, Jonathan Alpert, Kristin Davis, Patrick Daniel, Satyajit Das, Sigridur Benediktsdottir, Willem Buiter, William Ackman


Por: Bruno Mendes 

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1 comentários:

marcos nunes disse...

É um excelente filme com as inescapáveis lacunas de um documentário que precisa, em menos de 2 horas, expor um problema que se produziu historicamente em um processo de décadas. Deve ser visto para que as pessoas compreendam que, a defesa do mercado é, tão somente, a defesa do arbítrio praticado por um pequeno número de "bancos de investimento" que, da forma predatória e corruptora como atuam, comprometem a vida de bilhões de pessoas, enquanto oferecem o céu a um número restritíssimo delas.

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