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A cena de abertura de Poesia, vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes 2010, parece contrastar com o título do filme. O corpo de um cadáver boiando em um rio, enquanto crianças brincam na margem, parece destoar da beleza da arte escrita em versos. Mas, nem sempre é o belo que é representado nas linhas dos poetas, e também há quem veja pontos positivos em acontecimentos ruins ou até mesmo em tragédias. É aquela velha busca pelo lado bom das coisas. Afinal, o bem e o mal estão presentes em todo ser humano...

É claro que a dor da perda provocada pelo corte dos laços do convívio com um ente querido, seja pela morte, em contraste com a ordem natural da vida afinal, a cultura do luto habituou os filhos a enterrarem os pais , ou por uma simples mudança para uma cidade distante, é algo indescritível, mas há quem encontre forças justamente a partir do sofrimento. E é isso que o filme do diretor e roteirista  sul coreano Lee Chang-dong procura: levantar um questionamento acerca do poder da superação.

Quando a sexagenária Mija (Jeong-hee Yun), solitária e questionadora, se matricula em um curso de poesia, é desafiada pela primeira vez em sua vida. Sua busca pela inspiração poética a faz nascer novamente, observando a natureza como se fosse uma criança – neste ponto, se faz presente a filosofia de Nietzsche e sua tese da metamorfose espiritual, segundo a qual o ser humano passa por estágios representados pelo camelo (que assimila e aceita sem questionar, não se desprendendo do passado) e leão (ainda preso ao que é contra, e preocupado com o futuro), para, enfim, nascer de novo e, como uma criança, atingir a liberdade de viver, de forma plena, o presente (apesar de nem todos conseguirem alcançá-la).


Mija percebe que a beleza está nas coisas simples da vida, como contemplar a natureza ou degustar uma maçã. A captação de som direto (de Seung-cheol Lee, responsável pelo som da cultuada trilogia da vingança capitaneada por Oldboy, de Chan-wook Park) é belíssima e parte importante do filme, refletindo na forma como Mija encara o mundo após o contato com a poesia. A chuva, os passos na terra batida, o vento fazendo as folhas de uma árvore dançarem, como se quisessem dizer alguma coisa importante à protagonista...

A aspirante a poetisa passa por algumas experiências traumáticas que a fazem repensar sua vida. Sua filha foi morar em outra cidade e ela precisa criar sozinha seu neto, que, apesar de dividir o mesmo teto, parece mais distante do que a própria filha, não só pela rebeldia adolescente que faz alguns jovens adultos se arrependerem, em algum ponto de suas vidas –, mas também pelas amizades questionáveis. Ao saber que aquele corpo boiando era de uma adolescente que se suicidou, e que seu neto e cinco amigos têm ligação com esta tragédia, Mija precisa encontrar forças para seguir adiante.  
  
Poesia é um filme sensível e, apesar de desnecessariamente longo, fato que o torna cansativo em alguns momentos embora a escolha de Lee Chang-dong se justifique pela intervenção de personagens secundários e pela repetição da rotina de Mija, para amplificar a sensação de passagem do tempo , é de uma incrível beleza visual e sonora, além de fazer refletir, abordando questionamentos profundos sobre escolhas e como conviver com o próximo. Apesar de reparar, sob uma diferente perspectiva, na beleza da natureza, o ser humano não é tão belo quanto Mija imaginou.  

Estreia: 25 de fevereiro (SP). 
Estreia: 23 de junho (RJ). 

Poesia (Shi) – 139 min
Coreia do Sul – 2010
Direção: Lee Chang-dong
Roteiro: Lee Chang-dong
Com: Jeong-hee Yun, Hira Kim, Da-wit Lee, Nae-sang Ahn, Yong-taek Kim



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  1. Parece interessante...porém longo! Acho que vou assistir!

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  2. Gostei desse filme Mattheus, achei que passa bem de onde vem a poesia, concordo que é meio longo, mas fica curto pois o tema me atrai. O filme é uma aula de poesia completa.

    Abraços

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