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A Órfã (2009), embora irregular, possui ambientação competente e mantém o ritmo até o surpreendente final. Com imagens do inverno rigoroso de Berlim marcadas por uma fotografia de cores sóbrias, Desconhecido, o novo trabalho do diretor Jaume Collet-Serra, lembra a atmosfera sombria da obra antecessora. As semelhanças, no entanto, ficam por aí, pois Desconhecido tem um roteiro que navega desordenadamente e a direção não mantém um tom coeso, fracassando em suas pretensões.

O início do filme é promissor ao construir o enigma desencadeador da trama. Após um acidente de carro, o Dr. Martin Harris (Liam Neeson, de 72 Horas) acorda depois de quatro dias em coma. Ao procurar a esposa (January Jones), descobre que ela não o reconhece e outro homem (Aidan Quinn) assume sua identidade. No momento em que Harris busca desvendar a verdade, com ajuda da taxista do acidente (Diane Kruger), a respeito dos improváveis acontecimentos, o filme desanda ladeira abaixo.  

O suspense inicialmente criado transfigura-se em um filme de ação com direito aos ingredientes do gênero: perseguições, fugas improváveis, correria, esconde-esconde. A opção por entregar o segredo de bandeja ao espectador e transformar a aura de mistério até então correta em um jogo de gato e rato, com cortes abruptos, montagem frenética e boas doses de mentira, é  um erro crucial neste caso.



A inverossimilhança é aceitável em determinados gêneros, pois um filme bem construído narrativamente transporta o espectador para o universo fílmico e certos absurdos tornam-se boas sacadas, ou são ao menos toleráveis. Neste caso, porém, não há o que tolerar quando em determinada situação Harris, quase sedado, consegue desamarrar-se e fugir do "vilão", no hospital lotado. Na sequência seguinte, o mesmo Harris apresenta-se inteiro e saudável. Pronto para continuar nas suas investigações.

Contando com uma conclusão pífia, que escancara a salada temática do roteiro, a empatia entre espectador e personagens não é estabelecida, pois além do desinteressante progresso da trama, eles são frios e capazes de proferir frases banais, outro detalhe que ilustra a falta de inspiração do roteiro. Em determinado momento, Gina (Kruger) afirma, com espírito humanístico: "O que importa é o que você faz agora", ou, quando Harris, em uma situação tensa, mostra que não está tão ruim da memória. "Eu não esqueci tudo. Me lembro de como matar você, idiota".

Não é regra que um filme deva seguir uma unidade temática, ou de gênero, para obter êxito. Recentemente elogiei Amor e Outras Drogas e a mescla entre drama e comédia, que foi um dos motivos pelos quais gostei do longa. É preciso, no entanto, que um "tom" seja estabelecido, um aspecto envolto no roteiro e na direção que mantenha o filme coeso. Em outras palavras, a proposta precisa ser definida. Desconhecido não estabelece esse tom. E a mescla entre gêneros, temáticas e situações cria uma salada sem tempero. Estréia: 25 de fevereiro.
           
Desconhecido (Unknown) – 113 min
Reino Unido, Alemanha, França, Canadá, Japão, EUA – 2011
Direção: Jaume Collet-Serra
Roteiro: Oliver Butcher, Stephen Cornwell – Baseado no romance Out of My Head, de Didier Van Cauwelaert
Com: Liam Neeson, Diane Kruger, January Jones, Aidan Quinn, Bruno Ganz, Frank Langella, Sebastian Koch, Olivier Schneider 



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  1. Um filme razoável. Poderia ser melhor se interpretado por um expert em filmes desse gênero, Liam Neeson não convence. Apesar da desconexão do roteiro que em determinados momentos da trama gera situações que mesmo para surrealidade dos filmes parece demais, consegue-se assistir com certa curiosidade. No final uma surpresinha.

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