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O sentimento de inadequação pode levar algumas pessoas a mudar de vida radicalmente. E este sentimento não está só relacionado à fase de adolescência, como costumamos pensar, podendo acompanhar uma pessoa desde sempre. Esse foi o caso de Raquel, personagem de Deborah Secco, no longa Bruna Surfistinha, de Marcus Baldini, baseado na autobiografia O Doce Veneno do Escorpião.

Embora Raquel tenha decidido abandonar a família em torno dos seus 18 anos, o sentimento de estar no lugar errado parecia mais antigo e é evidenciado pela tensão estabelecida, principalmente, na sua relação com o irmão. Na escola, Raquel se encolhe (demonstrado pela postura da atriz, arqueando os ombros sempre para frente e para dentro), numa tentativa de não ser notada, de não ser vista como alguém que não deveria ou merecia estar ali. E, ao mesmo tempo em que sua atitude provoca o afastamento dos demais adolescentes, faz a própria Raquel sofrer por nunca se sentir desejada, incluída...

O desejo, de ser querida e de descobrir a liberdade, leva Raquel a fugir de casa e se apresentar num bordel para trabalhar como garota de programa. Mas, seu desejo vai além de ser dona da própria vida – o que faz sentido se pensarmos no sentimento de solidão de uma órfã adotada como ela –, é um desejo de provar para o mundo que ela existe. E não há nada melhor, numa sociedade conservadora como a nossa, do que uma mulher fazer sexo em troca de dinheiro para mostrar que pode fazer o que bem quiser.

  

Dessa atitude de trabalhar com raiva do mundo e prazer em fazer sexo, nasce Bruna Surfistinha, codinome construído por ela e atribuído a ela pelos seus fiéis clientes e leitores de seu comentado blog. Bruna é exatamente aquilo que Raquel gostaria de ser e, claro, saindo de um extremo ao outro, Raquel vai do anonimato a celebridade como Bruna, se regalando com seu sucesso e sofrendo com as consequências de se entregar a um amor próprio desmedido e sustentado apenas pela fama

Então, Raquel se afasta de sua amiga e companheira de trabalho Gabi (Cristina Lago) e passa a se relacionar com pessoas envolvidas com drogas, o que leva a garota de programa ao consumo de cocaína e a uma fase de autoflagelação intensa até ser amparada por Hudson (Cássio Gabus Mendes, de Cabeça a Prêmio), um antigo cliente que acaba se apaixonando por Raquel (a pessoa que ele acreditava estar escondida atrás da personagem Bruna) e pede a ela que deixe de trabalhar fazendo programa.

Embora esta última descrição pareça arrematar uma história difícil com um final feliz, o diretor faz um pouco mais que isso: traz à tona – com sensualidade, corpos nus e um tanto de realismo – alguma reflexão sobre a sexualidade, não só de Raquel/Bruna, mas de todos nós. Afinal, enquanto a sociedade separar as mulheres entre santas e putas, haverá cada vez mais vagas para garotas de programa. Estreia: 25 de fevereiro.

Bruna Surfistinha – 109 min
Brasil – 2011
Direção: Marcus Baldini
Roteiro: José de Carvalho, Homero Olivetto, Antônia Pellegrino – Baseado no livro O Doce Veneno do Escorpião, de Raquel Pacheco e Jorge Tarquini
Com: Deborah Secco, Cássio Gabus Mendes, Cristina Lago, Drica Moraes, Fabiula Nascimento, Guta Ruiz, Danielle Winits




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  1. Mônica, pela sua resenha, presumo que o filme tenha um conteúdo que vai além da história da Raquel/Bruna.

    Só uma dúvida: qual a trilha sonora do filme? Eu gostei...

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  2. Oi, Renan. A parte internacional da trilha inclui: Radiohead,The Zombies e The Flaming Stars. A nacional: a cantora Céu, a cantora e compositora BlueBell, Robinho da Prata, no funk, e a Banda Ritmo Quente.

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  3. Oi.

    O comentário a seguir já estava preparado para ser publicado em meu blog, e assim será. Mas adianto aqui:

    Cinema de programa

    Tem gente que adorou, tem gente que detestou, tem gente que não viu e não gostou, e tem gente que não viu nada demais e muito de menos. Alguns que não gostaram cometeram um erro básico de abordagem. Talvez por ser cinema brasileiro, não hollywoodiano, pensaram em ver algo com algum ranço artístico. Mas não há nenhum. É o mau cinema comercial de sempre, baseado no carisma (?), personalidade (?) e celebridade (bem, aí até que sim) de sua protagonista, em associação direta com a estética e a referência das novelas de televisão.

    Bruna Surfistinha, o filme em questão, não se propõe como arte. É uma crônica de costumes que tem um objetivo: atrair público curioso em relação ao meio da prostituição, e aqueles que gostam de ver sexo simulado e nudez moderada sem ferir o "bom gosto" dos "homens de bem"... A linguagem é linear, as análises não se aprofundam, os personagens são tipificados, as falas são geralmente meramente descritivas e, de resto, explora-se a beleza, nem que seja para apimentar as imaginações puritanas. Voyerismo, apoliticismo e moralismo em doses variadas, qualquer coisa, menos arte. Comércio. Como a prostituição. É o cinema de programa. Quanto você paga para ver?

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  4. O filme pode ser de programa, mas só por isso já teria merito de incomodar os chatos e hipocritas de plantao. é o ponto de vista de uma garota de programa,nao é valido só por isso? tem sim mts questoes sobre a sexualidade nos dias atuais, é um filme bom pra discutir relações de hoje sobre corpo, imagem, culto a celebridade,genero sexualidade., e nao tem nada na minha opiniao de cinema comercial comum, nao imagino um filme, onde a protagonista claramente vomita "semen", passe depois da novela. O apelativo do filme e de sua linguagem nao é causa de nada é sintoma de nossa epoca do que nós somos! Nao adianta fugir disso ou desqualificar. Tem que ser compreendida que sociedfade é essa do espetaculo ao corpo ao futil ao prazer "facil", tudo muito bem equacionado no filme..RECOMENDO.

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  5. Não acho que o filme represente, em especial, o "mau filme comercial de sempre". Mesmo que o conteúdo não se constitua um "mergulho na alma", ainda assim oferece elementos que nos fazem pensar sobre a questão da moralidade, da sexualidade e da superficialidade presentes principalmente nos vários meios de comunicação. E a personagem em questão funciona bem como chamariz para essa discussão. O importante é estarmos dispostos a discutir, no lugar de condenar ou evitar o assunto.

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  6. "Chatos e hipócritas de plantão". Uma carapuça que não me serve. Não me incomoda ler e ver qualquer obra centrada na questão da prostituição; a questão não é essa. Não se trada da defesa de uma sociedade moral, isso não existe, mas outra coisa: dentro da imoralidade hipócrita da sociedade que se diz motal, a opção pela prostituição é dada como saída viável para en contrar uma colocação no mercado, e fugir às condições essenciais à personagem Bruna: carência de amizade e amor quer da família quer dos amigos; falta de dinheiro; falta de destaque social. As discussões mais relevantes ficam no meio do caminho, não há uma crítica de valores da sociedade que, enquanto condena atitudes desviantes, vê nelas boas oportunidades lucrativas. Há uma indústria da prostituição: boates, motéis, "saunas" e agências; ela gera empregos também na indústria da moda, bebidas, cigarros, drogas. O centro de tudo não é a moral, mas o dinheiro. O filme é mais um subproduto dessa lógica: isso aqui dá lucro, pensaram os produtores. É o cinema de programa, cinema-prostituta. O contraponto não é a moral, mas o cinema de arte. O ponto de vista é artístico. Dá para entender ou quer que desenhe?

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  7. Cara Rachel, não acho que essa escolha: "opção pela prostituição é dada como saída viável para encontrar uma colocação no mercado" seja muito diferente de tantos outros filmes. Isso concordo contigo. E também acho que se o filme não tivesse esse apelo comercial não seria visto enm por 1/3 das pessoas que estão assistindo.
    Não que a quantidade de espectadores seja um fator por si só positivo. Claro que não. Mas só o fato de estarmos falando sobre isso publicamente já levanta questões que o filme, como tantos outros, não aprofunda. E isso é essencial para movimentarmos um pouco esse processo de "cinema de propaganda", como você diz.
    Se essas questões são abordadas de maneira ineficiente no cinema em geral, esse filme não pode ser condenado sozinho. É mais um exemplar da mesma espécie.

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  8. E fica a questão: O cinema comercial vende caro um conteúdo barato?

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  9. Melhor crítica do filme que li até agora. Parabéns!

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  10. Tantos filmes bons que nem chega a ir para os cimemas. Lamentável que as coisas no Brasil sejam desse jeito. Assistir ao filme e não recomendo. No final das contas ficamos quase 2horas assistindo cenas que não levam a lugar nenhum.

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  11. o filme é insuficiente em todos os aspectos. Começando pelo roteiro, baseando em um livro popular ruim, não tinha como ser diferente. Entendam, não é que tudo o que é popular é ruim, mas nesse caso a proliferação do lixo narrativo foi muito grande.
    Sabendo que o filme não tem uma história interessante, começei a reparar outros aspectos da produção. Deborah Secco não convence em momento algum, embora ela tenha todo o perfil da personagem ainda sabemos que, é, é a Deborah Secco alí ó...
    Como a atuação estava deixando o filme cair em descrédito total, tentei encontrar a graça do filme, o por quê, e descubro que a graça do filme eram as cenas de sexo com Deborah Secco. Ok, se essa é a proposta, que vá.
    Mas aí então... as cenas de sexo eram breguíssimas, céus!
    Só posso concluir que perdi tempo da vida.

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  12. O filme tem ótimas cenas de humor, e eu achei a interpretação da Deborah Secco muito boa. Na cena em que ela chega a SP, sozinha, mochila nas costas, ela transmite toda a atmosfera de solidão e busca de se encaixar em algum lugar pelo olhar daquela menina a se perder na vida. A primeira cena de sexo é uma espécie de ritual de passagem, que traduz a força e determnação da personagem em ser outra pessoa, e ela diz: "eu não chorei, não pedi pra parar, e decidi que naquele momento a Raquel tinha ficado pra traz." Achei a música do Radiohead super apropriada. Acredito que é um filme que pode levantar muitas leituras, como o deslocamento e a falta de um sentido pra vida que leva o ser pos moderno a desafiar regras e os próprios limites, chegando a se agredir nessa busca. Ou a relação entre á mídia e a mercantilização da mulher. Quanta gente por aí (inclusive na política)não se vende (corrompe) pra ter dinheiro e poder? Dinheiro rápido justifica tudo na vida? Não o considero um filme comercial, se visto como tal, será apenas focado como mais um filme sobre sexo, drogas e rock`n roll, o que seria fruto de uma leitura muito pobre e superficial.

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  13. Este filme demonstra através da realidade, que atrás da profissional, exite o fenômeno mulher de carne e osso, que tem dificuldades, dores, amores, frustrações, é um ser antes de tudo. Capaz de rir e chorar, são julgadas por pessoas,por uma sociedade hipócrita,por religiões que se fecham ao ser, por estar na profissão prostituta, mas não são 24 horas do dia essa personagem, existe uma pessoa de carne e osso por trás, que tem angústias. Numa sociedade capitalista onde se vende de tudo e todos, para poder sobreviver, e onde tem comprador e consumidor.

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  14. Comprei um DVD no camelo e assisti em casa.Nem assisti no cinema porque ja imaginava que o filme nao valeria o preco do bilhete.
    E acertei!Tudo no filme e ruim!Bruna e uma figura ridicula e lamentavel,sua vida e pifia e nao renderia um bom filme nunca.O filme forca a barra pra tentar fazer um "Cristiane F" nacional, mas nao consegue.Tentaram romantizar e glamurizar a vida de Bruna pra torna-la mais interessante,mais "cinematografica" mas o resultado e lamentavel.Tentaram tambem culpar a familia de Raquel pelo seu comportamento,que absurdo!Porque nao foram ouvir a versao da familia dela para essa historia toda antes de coloca-los de forma tao patetica e superficial no filme? Raquel Pacheco e uma pessoa mal-agradecida,irresponsavel e mediocre.O que ela quer e isso mesmo, que todos falem mal,mas falem dela. O filme e um cliche atras do outro, atuacoes ruins,historia simploria,um lixo mesmo.Depois de otimos filmes como Os Normais, Chico Xavier e Tropa de Elite, esse Bruna Surfistinha foi um retrocesso para o cinema nacional.Logo vai ser esquecido ,assim como essa pseudo-celebridade vergonhosa que e essa tal de Bruna,ou sera Geisy,ou sera Bianca Soares?Ah, tanto faz,e tudo a mesma porcaria!

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  15. Gostei do filme pois ja passei por crise semelhante e quase resultou no mesmo fim, tambem sou branquinho e estudei em boas escolas particulares, mas nao sou adotado, e assim como eu quantos mais? Acho que a discuçao disso vai muito mais alem da moral ou nao moral...

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  16. Bem... Achei o filme até razoável, mas só reforçou minha ideia de que Bruna Surfistinha na verdade não existe; é tudo uma invencionice conjunta de Raquel Pacheco e bons editores/assessores. Aliás, tentar vender a ideia de que Bruna era desejável e bonita foi meio demais. Eu acredito nisso vendo a Deborah Secco, mas não a Raquel Pacheco, coitada, que é feia de doer e isenta de sensualidade.

    E em relação à obra dela... Se for para ler algo de conteúdo relativamente erótico baseado em um blog, fico com um livro chamado Sexto Sexo, que também veio de um blog de 2001 (mesma época do da Bruna), mas que pelo menos se assume como ficção, sem tentar forçar a barra para virar hit.

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