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Guilherme Monteiro dirigiu o curta Bad Romance, Horror Movie

Do it yourself (faça você mesmo) era o principal slogan do movimento punk nos anos 1970 e estimulava pessoas comuns a realizarem atividades com seus próprios recursos – mesmo que fossem muito limitados – em vez de pagarem por algum trabalho profissional. Hoje, com equipamentos cada vez mais baratos e portáteis que gravam vídeos, uma nova geração de cineastas está nascendo e vendo o sonho de fazer filmes florescer.

As músicas de três acordes das bandas que saíram de pequenas garagens para o mundo dão lugar aos curta-metragens que ganham a internet e já têm até festivais próprios, como o Curta Cinema e o Festival de Filmes de Celular. Com o avanço da tecnologia, não é preciso mais uma ideia na cabeça e uma câmera na mão para fazer um filme. Pode ser uma máquina fotográfica, um MP5 ou até mesmo um celular.

Os equipamentos mais baratos, como hand-cams digitais e programas de edição que rodam em PCs convencionais permitem que qualquer pessoa possa fazer um curta-metragem, ou um seriado, e postar no Videolog ou Youtube – processo semelhante ao crescimento de bandas independentes, que, com o auxílio de equipamentos caseiros de gravação e de sites como o MySpace ou o Trama Virtual, ganharam enorme projeção, sem precisar de gravadoras.

Mas não são só cinéfilos que desejam fazer filmes experimentalmente os únicos beneficiados pelas novas tecnologias. O mercado profissional também lança mão deste recurso, já que o equipamento digital barateia o custo da produção – e exibição – de longa-metragens em relação ao uso da película. Alguns cineastas dos chamados filmes de arte, que não fazem tanta bilheteria quanto os grandes blockbusters, como Domingos de Oliveira, por exemplo, não produziriam tantos filmes sem se adaptarem à nova realidade mercadológica de corte de gastos.

O baixo custo de acesso ao digital revela talentos corajosos na produção nacional, analisa o ator Ary França, do sucesso cult Durval Discos, que critica o acomodado mainstream. “Se, por um lado, com a tal ‘livre concorrência’ e ausência relativa ou total do Estado, se produz filmes para o mercado, o experimentalismo, independentemente de sua qualidade, fica sempre sacrificado. Tudo em nome de se agradar ao máximo de gente possível. Quem imagina um grande cineasta (mesmo!) querendo agradar a todo mundo? Muito chato ver talentos se perderem assim todos os dias”. 

Nova geração de cineastas ganha espaço na internet


Além de crítico de cinema, Fabrício Duque também dirige curtas

Mas é justamente nas novas tecnologias que uma nova geração de cineastas está se formando e oferecendo uma saída a quem procura um diferencial às produções voltadas apenas ao entretenimento, que deixam o experimentalismo artístico de lado. O cinéfilo Pedro Tavares já fez diversos curtas em digital e vê uma possibilidade infinita de inovações, até mesmo usando apenas celulares em uma produção. “É um grande exercício de linguagem e também estético”.

Estes dispositivos dão espaço para "amadores", que não têm chances de entrar num mercado tão fechado como o do cinema, se expressarem de alguma forma e serem vistos. Utilizar a internet como meio de divulgação do trabalho é simples e oferece um retorno muitas vezes imediato. Guilherme Monteiro divulga seus curtas nos perfis de suas redes sociais e já usou desde câmeras profissionais em Mini DV a máquinas fotográficas digitais e celulares.

Esta geração de cineastas 2.0 pode ser usada como fonte de novos talentos para grandes produtoras, como é o caso de Esmir Filho. Seu curta Tapa na Pantera (2006) já teve mais de 4 milhões de acessos no Youtube e, em 2009, ele lançou o longa Os Famosos e os Duendes da Morte pela gigante Warner. O crítico de cinema Fabrício Duque acredita ser praticamente impossível impedir que qualquer pessoa transforme-se em um cineasta, já que com celulares e câmeras digitais, de baixíssimo custo, grava-se o que quer e, com a internet, divulga-se como quer.

A audiência do Youtube tem o poder de criar verdadeiros popstars. Os vídeos acabam ganhando vida própria, sendo replicados e seguindo seu curso. “Alguns deles ultrapassam a máxima de Andy Warhol e seus quinze minutos de fama”, analisa Fabrício. A facilidade de produção e de divulgação torna estratosféricos os números de trabalhos lançados, principalmente na internet, e, pelo volume de material, a maioria nada e morre na praia, mas a chance do sucesso digital democratiza a produção cinematográfica e revela novos valores artísticos, que não teriam chance alguma no mercado analógico dominado pelas majors.
 

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