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Do que é feita uma ideologia? Sem dúvidas, de ideias e de um desejo de realizá-las, de convertê-las em ações para transformar o mundo. Para o escritor russo do século XIX, Leo Tolstoy (autor de Guerra e Paz e Anna Karenina), talvez esse desejo fosse representado pela defesa da justiça social e liberdade, numa ânsia de proporcionar às pessoas o direito de serem sujeitos ativos de suas próprias vidas. Para ele, a propriedade privada aprisionava a ideia do coletivo, da igualdade de direitos, assim como as doutrinas da Igreja aprisionavam os pensamentos, distorcendo nossas concepções sobre o mundo. Tolstoy, ao longo do tempo, desenvolveu sua própria filosofia de vida, tornando-se vegetariano, defensor da não-violência, convivendo e vestindo-se como um camponês.

Entretanto, seu discurso acabava contendo algo de doutrinador, orientando, como em um manual, o modo de viver tolstoiano, deixando claro como é difícil ser idolatrado como um gênio, sem perecer da própria idolatria. Dessa forma, os tolstoianos mais radicais como o braço direito de Tolstoy, Vladimir Chertkov (o sempre excelente Paul Giamatti, de Almas à Venda) e sua filha Sasha Tolstoy (Anne-Marie Duff) – utilizaram o discurso de seu mestre para sustentar uma doutrina baseada num certo radicalismo e intolerância em prol de sua propagação.



Leo Tolstoy construiu a sua vida e suas ideias ao lado da esposa Sofya Tolstoy (a irretocável Helen Mirren, de RED) e é justamente essa relação que expõe os seus limites ideológicos: a intenção da liberdade e amor e a prática rígida da doutrina pelos seus seguidores. Sofya questiona ferozmente Leo, numa mistura de ciúme e apreço pela estrutura e patrimônio familiares, embora o ame e admire profundamente. Leo vê-se encurralado entre sua cumplicidade de ideias partilhada com Vladimir Chertkov e seu amor e respeito por Sofya.

Nesse redemoinho de emoções e filosofia, embarca, como secretário particular de Tolstoy, Valentin Bulgakov (James McAvoy, de Desejo e Reparação). Admirador declarado de Leo, sempre cambaleante entre seu radicalismo ingênuo e sua adoração pela figura de Tolstoy, ele acaba por representar um ponto de equilíbrio nos conflitos ao longo da história, expressando uma doçura comovente. Com um elenco de tirar o fôlego, A Última Estação, de Michael Hoffman, nos presenteia com uma fração da história de Leo Tolstoy que, embora pequena, é capaz de dar a dimensão afetiva e humana das ideias desse pensador. Em sua última estação, Tolstoy sorri e nos deixa, enfim, a sua mensagem: “Tudo que sei, sei porque amo”. Estreia: 28 de janeiro.

Estreia (SP): 01 de abril.

A Última Estação (The Last Station) –112 min
Alemanha, Rússia, Reino Unido – 2009
Direção: Michael Hoffman
Roteiro: Michael Hoffman – Baseado no romance de Jay Parini
Com: Helen Mirren, Christopher Plummer, James McAvoy, Paul Giamatti, Anne-Marie Duff, Kerry Condon, John Sessions, Patrick Kennedy



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