1
O lixo do maior aterro sanitário da América Latina, Jardim Gramacho (município de Duque de Caxias), ganhou forma e beleza nas mãos do artista plástico Vik Muniz. E os catadores que dependem financeiramente deste lixo resgataram aos poucos sua autoestima e esperança. É o que relata, de forma sensível, Lixo Extraordinário, documentário filmado na periferia do Rio de Janeiro, com direção de Lucy Walker e co-dirigido por João Jardim e Karen Harley.

O objetivo inicial de Vik Muniz era retratar os catadores em sua rotina. Mas seu contato direto com pessoas que, mesmo postas à margem da sociedade, revelavam grandeza de alma, provocou no artista o desejo de mudar a vida daquelas pessoas, oferecendo-lhes sonhos, outras formas de pensar e a possibilidade de enxergar beleza no que antes era um amontoado de lixo.

Vik Muniz nasceu numa família de classe operária, em São Paulo, e, após receber uma indenização, teve oportunidade de morar e trabalhar no exterior e desenvolver seu talento como artista plástico, sendo hoje reconhecido mundialmente. No auge de sua carreira, ele resolve devolver à sociedade marginalizada uma parte do que conquistou. Ao se deparar com as experiências de vida de Tião, Isis e Zumbi, entre outros, o aprendizado se torna mútuo.

O espectador de Lixo Extraordinário poderá se emocionar e refletir sobre várias questões relevantes: o consumismo que afeta diretamente o ambiente; o problema, ainda crítico, dos aterros sanitários, ou os chamados lixões a céu aberto, que recebem não somente lixo doméstico, mas lixo hospitalar e industrial, além de servirem como área de desova da violência proveniente do tráfico; a marginalização social imposta a seres humanos, que, desprovidos do básico à sobrevivência, se excluem do processo de construção da cidadania e optam pelos caminhos do tráfico e da violência...

Ações como a de Vik Muniz, ainda que raras, acontecem. Pessoas como Tião, Isis e Zumbi, que sobrevivem às adversidades, mantendo a esperança e o respeito próprio, também existem. O que pouco se vê são iniciativas do poder público e do setor privado. O que praticamente inexiste é uma consciência social, ao se pensar nas escolhas que fazemos todos os dias e na forma como tratamos seres humanos em nada diferentes de nós, que vivem conosco no mesmo espaço geográfico, onde constroem seus sonhos e suas duras realidades

Foi inevitável não lembrar de duas visitas que fiz a lixões na Bahia. É comovente para quem acredita na necessidade de mudança e, esperançoso, ao se pensar que trabalhos como o de Vik Muniz são capazes, não somente de mudar a vida de catadores, mas também do público que irá assistí-lo nos cinemas. Estreia: 21 de janeiro.

Lixo Extraordinário (Waste Land) - 99 min
Brasil, Reino Unido - 2009
Direção: Lucy Walker, João Jardim, Karen Harley
Com: Vik Muniz, Fabio Ghivelder, Isis Rodrigues Garros, José Carlos da Silva Baia Lopes (Zumbi), Sebastião Carlos dos Santos (Tião), Valter dos Santos, Leide Laurentina da Silva (Irmã), Magna de França Santos, Suelem Pereira Dias



Em cartaz no Festival do Rio 2011

Compartilhe este conteúdo |

O Cinema está na Rede e também no Twitter

Postar um comentário

 
Top