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O novo filme de Rosane Svartman, diretora de Como Ser Solteiro (1998), retrata o universo adolescente dos estudantes de ensino médio de forma madura, com um roteiro consistente baseado em pesquisas colaborativas realizadas em escolas e na internet. Após a cabine de imprensa, a cineasta conversou com o Cinema na Rede e disse que sua maior preocupação na pré-produção do longa foi passar para a tela uma história convincente e horizontal, que não visse o adolescente de uma posição de quem sabe tudo, de cima para baixo. O adulto também pode aprender com o jovem. Por que não? 

Além do cuidado empregado na pré-produção, a equipe do filme tem feito um trabalho de "formiguinha" o famoso marketing de guerrilha , exibindo sessões especiais de Desenrola, inclusive em escolas. "Os anos 2000 não têm a tradição de filmes adolescentes, como havia na década de 1980", diz Rosane. E ela tem razão. O saudosismo faz parte do roteiro, assinado pela própria Rosane Svartman, em parceria com Juliana Lins e com consultoria do onipresente Paulo Halm, fazendo referências à década do chocolate Surpresa (saudades de quando saía da escola e ia para a lojinha de doces ver as figuras dos animais do delicioso tablete).

As menções são muito interessantes, pois são compostas pelo ponto de vista de uma menina de 16 anos, praticamente uma nativa digital, a protagonista Priscila (Olivia Torres). Seu encontro com relíquias, como um walk-man, que sua mãe guardava em um canto esquecido, é hilário. Mas a referência não se faz só em objetos, mas também na música. A velha guarda é representada pela banda Simple Minds para a atual geração internet, antenada apenas nas "novidades", uma banda que iniciou suas atividades no fim dos anos 1970, é considerada do período jurássico. É... sua mãe também já teve 16 anos um dia.

O longa não é apenas uma espécie de Malhação O Filme (inclusive, a maioria dos atores que estão em Malhação atualmente só entraram na novelinha após gravarem Desenrola). Apesar de escorregar quando lança mão de uma trilha sonora teenager, a simbologia carregada pelo fato de Priscila se apoderar do walk-man, em vez de um Ipod, por exemplo, conhecendo com grande interesse e cabeça aberta o som que sua mãe ouvia, é determinante para a narrativa se mostrar madura. Deixando a subjetividade de lado, as participações especiais chamam a atenção. A primeira cena já mostra a mãe da adolescente (Claudia Ohana) a enchendo de recomendações de mãe superprotetora mas não mais que o pai, interpretado por Marcello Novaes


Além dos pais, também merecem destaque as participações de Letícia Spiller, Juliana Paes (apenas no finalzinho) e Smigol, comentarista do Rock Bola. Único ponto fraco é Pedro Bial, como um professor. Não dá para separar sua imagem da de apresentador do BBB, quando ele explica um trabalho para a turma do ensino médio, como se estivesse explicando as regras de uma prova para os seus intitulados "heróis" (que de heróis não têm nada). Mas o maior mérito do filme é informativo, fruto da pesquisa e dos depoimentos colhidos na pré-produção. Temas que precisam ser debatidos e devem fazer parte da ementa escolar, como virgindade, banalização do sexo e gravidez na adolescência, são expostos e mesclam a diversão cômico/romântica de Desenrola com assuntos de utilidade pública, com uma leitura leve e atrativa para o público-alvo do filme.

Priscila tem uma paixão platônica incontrolável por Rafa (Kayky Brito) e, quando sua mãe viaja e a deixa sozinha por 20 dias em seu apartamento, a menina vai fazer de tudo para conquistar o rapaz de forma atrapalhada, pela falta de experiência, mas é no planejamento e nas tentativas que está a graça do negócio. Caco (Daniel Passi), melhor amigo da mocinha, vai tentar ajudá-la na aventura, que tem uma bela lição de moral. Vítima da invasão de privacidade, infelizmente tão comum no universo tecnológico, Priscila prefere fingir ser como a maioria para chamar a atenção do galinha Rafa, do que ser ela mesma. 

É inevitável não lembrar de As Melhores Coisas do Mundo, por diversos pontos em comum, mas não ter Fiuk no elenco já é um grande diferencial. Quando Boca (Lucas Salles) começa a ganhar importância na trama, o roteiro se divide em núcleos, que se amarram de forma muito bem construída. Ele tem tiradas ótimas, assim como Priscila: "70% do nosso corpo é água. Será que dá pra se afogar na gente?". A linguagem visual de Desenrola também merece destaque, por unir elementos modernos e jovens à captura tradicional de imagens. O final é criativo e vale a pena dar uma olhada com atenção nos créditos, que contam com um inusitado chat via cam. Estreia: 14 de janeiro. 

Desenrola 88 min
Brasil 2010
Direção: Rosane Svartman
Roteiro: Rosane Svartman, Juliana Lins
Com: Olivia Torres, Lucas Salles, Vitor Thiré, Juliana Paiva, Daniel Passi, Thais Botelho, Kayky Brito, Claudia Ohana, Jorge de Sá, Juliana Paes, Letícia Spiller, Marcela Barrozo, Marcello Novaes, Pedro Bial, Roberta Rodrigues, Smigol, Ernesto Piccolo, Heitor Martinez



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  1. Olá, aqui é a Rosane, diretora do filme. Bem legal ler essa crítica. Realmente é inevitável comparar com outras produções recentes com/para adolescentes, mas sinto que elas de alguma forma se somam e sei lá, quem sabe conseguimos reconquistar esse espaço pro cinema brasileiro. Obrigada. Bjs Rosane

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