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A minha primeira sensação após o término do filme Amores Brutos (2000), do diretor Alejandro González Iñárritu, foi de medo da morte, ou da iminente perda de algum ente querido, em determinada circunstância trágica. O fascínio da experiência com este filme, então, veio da forma visceral com a qual as questões do longa foram expostas na telona. Os posteriores 21 Gramas (2003) e Babel (2006) completaram a impactante Trilogia do Caos e comprovaram o grau de excelência da dupla com o roteirista Guillermo Arriaga. O novo filme de Iñárritu, Biutiful, é o primeiro longa sem a participação do aclamado roteirista; os excepcionais requisitos, no entanto, imperam. A iminência da morte é, mais uma vez, o cerne da trama deste filme arrebatador.

Javier Bardem interpreta Uxbal, um médium, pai de dois filhos, que trabalha em uma organização formada por imigrantes ilegais africanos e chineses, que comercializa produtos falsificados. Com câncer de próstata em estágio avançado e a vida atribulada com problemas no trabalho e a ex-esposa bipolar e alcoólatra, Uxbal tenta lidar com as adversidades procurando relacionar-se melhor com as pessoas do seu convívio. O amor e o perdão são ingredientes essenciais na redenção do protagonista. 

Na filmografia de Iñárritu, as imagens fortes são recorrentes. A ambientação opressora de Biutiful é marcada por uma cenografia detalhista, com salas e quartos escuros, pequenos, com marcas de infiltração e sujeira espalhadas. A câmera acompanha o personagem por esses espaços, o que permite ao espectador vivenciar de perto a decadente vida do protagonista. A minuciosa caracterização de Javier Bardem, obviamente, é decisiva para a compreensão do estado de espírito do personagem.



Com a mesma competência com que concebeu as cenas internas, a cenografia de Biutiful apresenta uma Barcelona periférica, escura, de becos e casebres insalubres. Nas avenidas movimentadas, os engravatados bem sucedidos andam apressadamente e são mostrados em planos curtos, com uma montagem frenética, como se não tivessem rostos; os trabalhadores que arriscam a própria vida com a venda de produtos piratas, por outro lado, têm destaque. A diversidade cultural é também um tema recorrente do diretor. Além das adversidades dessa confluência de costumes, claro.

O excelente roteiro, amparado no trabalho de todo o elenco – em parceria com a competência da montagem, cenografia e direção de arte – contribuem para o inegável impacto emocional do filme. Vale mencionar novamente a interpretação de Bardem, que rouba a cena no papel de um homem com pouco dinheiro e envolto em problemas de dimensões inimagináveis, mas que busca dentro de si, até os últimos minutos, um espaço para se redimir. No momento em que piora da doença, e a depressão o consome, as expressões faciais e até a forma de caminhar comprovam o talento do artista. 

Sem Arriaga, Biutiful é uma espécie de continuação da Trilogia do Caos. A morte, a multiplicidade cultural, a depressão dos personagens com problemas severos... Iñárritu (desta vez também como roteirista) mantém sua marca. E, como a sétima arte é um conjunto de ingredientes, além da soberba representação da dramaticidade humana da história contada, a força das imagens representa este cinema realista. Imagens que representam o caos, que não se diluiu com o fim da trilogia. Estreia: 21 de janeiro.

Biutiful (Biutiful) - 147 min
Espanha, México - 2010
Direção: Alejandro González Iñárritu
Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Armando Bo, Nicolás Giacobone
Com: Javier Bardem, Maricel Álvarez, Hanaa Bouchaib, Guillermo Estrella, Eduard Fernández, Cheikh Ndiaye



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