1


A mediunidade já é tema recorrente no cinema como Ghost (1990) e a obra-prima de M. Night Shyamalan, O Sexto Sentido (1999) , e em séries de TV. Mas a nova obra de Clint Eastwood tem a personalidade característica do diretor, não caindo nos clichês do gênero. Dividido em três núcleos, o roteiro de Peter Morgan conta a história de diferentes pessoas afetadas de alguma maneira pela morte, em diferentes partes do mundo. A ótima cena de abertura faz uma angustiante recriação do tsunami na Tailândia em 2005, onde a jornalista francesa Marie (Cécile De France) teve uma experiência de quase morte, que alterou completamente sua vida.

Nos EUA, George, um médium (Matt Damon reencontrando Clint após Invictus), vive um dilema existencial e se pergunta: "Seu dom é uma benção ou uma maldição?". Enquanto seu irmão mais velho quer que ele ganhe dinheiro com a prática de fazer "comunicação" com os mortos, como ganhou um dia, George prefere trabalhar em uma fábrica como operador de empilhadeira, com um baixo salário, em vez de ser um vidente famoso, pois acredita que "Uma vida centrada na morte não é vida". Na Inglaterra, o menino Marcus (os irmãos gêmeos Frankie e George McLaren), além de ter uma conturbada vida familiar, já que sua mãe é dependente química e vive às voltas com a assistência social, perde a pessoa mais próxima em um acidente fatal.

Além de ter como pano de fundo a recriação de importantes fatos reais (além da já citada tsunami, as explosões no metrô de Londres, por exemplo) para situar seus personagens em momentos-chave de seus conflitos, Além da Vida faz interessantes referências científicas à abordagem da vida após a morte. Quando Marie encontra uma estudiosa do tema, que trabalha em um centro de tratamento de doentes terminais, o diálogo entre as duas é instigante. Assuntos como condicionamento social, não linearidade do tempo e imaterialidade quando tudo se torna um ou quando se é tudo em um só tempo são debatidos e propostos como evidências científicas, em oposição ao já massificado charlatanismo.


Os núcleos de Marie, em Paris, e de Marcus, em Londres, são consistentes e emocionantes, ao contrário do conflito de George, que derrapa na forma como sua condição é explicada. A preferência pelo anonimato, em detrimento do sensacionalismo do qual foi vítima, o seu fracasso em relacionamentos amorosos e o que o levou a desenvolver seu dom são expostos no encontro com Melanie (Bryce Dallas Howard, em atuação exagerada, contrastando com a forma contida com a qual os personagens principais lidam com a perda e a saudade). Quando George faz um curso de culinária para esquecer do antigo trabalho como médium  na verdade uma costura no roteiro para a entrada da personagem de Bryce a trama perde o foco e derrapa, mas não a ponto de prejudicar o longa como um todo.

George sente-se anormal e não quer ganhar dinheiro pelo seu dom. Ele quer apenas se sentir uma pessoa comum. A admiração por Charles Dickens se faz presente e só ouvindo um audiobook é que consegue  dormir, após as enxaquecas e pesadelos a que estava habituado. Além da Vida é um belo drama psicológico e existencial, para todos os públicos inclusive quem não acredita em vida após a morte , ao contrário de Chico Xavier e seus derivados,  que são direcionados a um nicho específico, o público espírita. O desenvolvimento da trama e o iminente encontro entre seus personagens principais, Marie, George e Marcus, é realizado sem pressa, com calma, com o sabor tranquilo da degustação de um bom vinho – ou café, para quem não bebe. Estreia: 07 de janeiro.

Além da Vida (Hereafter) - 129 min
EUA - 2010
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Peter Morgan
Com: Matt Damon, Cécile De France, Thierry Neuvic, Frankie McLaren, George McLaren, Lyndsey Marshal, Bryce Dallas Howard



Compartilhe este conteúdo |
O Cinema está na Rede e também no Twitter

Postar um comentário

  1. Fico com o café e o vinho. E, com certeza, vou conferir o filme do Clint. ;)

    ResponderExcluir

 
Top