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É admirável ver um jovem com tão avançado nível cultural e tantas boas referências, não só cinematográficas, mas artísticas em geral, explicitadas em Eu Matei Minha Mãe, seu début como diretor O Grito de Munch na porta do quarto de Hubert Minel (alter ego de Xavier Dolan) é apenas um exemplo que chama a atenção do espectador mais atento. Não só pelo inegável talento, mas,  principalmente, pela idade prematura com que ele escreveu o roteiro da obra 16 anos , e com que a filmou apenas 20 , Dolan tem chamado atenção não só do grande público, mas também do universo cinematográfico. Seu filme de estreia ganhou prêmios nos Festivais de Bangkok, Palm Springs e no tradicional Cannes, onde causou alvoroço aqui, a comparação com Truffaut e seu Os Incompreendidos (1959) seria inevitável, não fossem as consistentes diferenças contextuais, tendo em vista o conturbado momento político, conceitual e mercadológico em que a Nouvelle Vague foi concebida.

Além de Truffaut e da Nouvelle Vague, as inúmeras influências de Xavier Dolan são evidentes em seu estilo, passeando pela homossexualidade declaratória de Gus Van Sant às cores fortes de Almodóvar e suas personagens femininas como objetos de estudos e conflitos. O que caracteriza um gênio é ter o espírito de vanguarda, a capacidade de oferecer pelo menos algum elemento novo, com força suficiente para alterar a estrutura artístico/mercadológica vigente e quebrar paradigmas e barreiras. Mas, pelo menos, por enquanto, o canadense de Quebec nascido em 1989 (muita gente acha que ele é francês, se esquecendo de que no Canadá também se fala o idioma francês em algumas regiões) não pode ser elevado a esse status. Se Eu Matei Minha Mãe fosse realizado daqui a alguns anos, depois de Dolan ter se aventurado na direção de outros longas, talvez, aí sim, pudesse ser uma obra-prima. Não só pela experiência adquirida atrás da câmeras, mas, principalmente, pela maturidade e crescimento como ser humano (se bem que algumas pessoas não crescem nunca). Ou seja, seu futuro artístico ainda é uma incógnita.



A impossibilidade do amor familiar, perante os desgastantes conflitos do dia-a-dia, é mostrada de forma histérica em Eu Matei Minha Mãe, e o Grito de Munch tem papel fundamental para uma analogia subjetiva. Em contraposição à beleza estética do filme, seu conteúdo é opaco e falha em oferecer um estudo psicológico da relação mãe e filho, como parece se propor. Os gritos histéricos e as discussões sem sentido que Hubert Minel (interpretado pelo próprio Xavier Dolan) e Chantale (Anne Dorval) travam demonstram a imaturidade de ambos. Ele não sabe aceitar um "não", quer que tudo seja do seu jeito (como a maioria dos adolescentes rebeldes sem causa), e ela, visivelmente, não está preparada emocionalmente para ser mãe, mesmo depois de 16 anos de experiência prática. O ser de Eu Matei Minha Mãe está ontologicamente ligado à mágoa e ao rancor que Hubert Minel nutre pela figura materna e, apesar da inconsistência dramática, tem algumas passagens belíssimas, como quando Hubert pergunta: "O que você faria se eu morresse hoje?" e Chantale, pela teimosia de não querer (ou conseguir) ceder e lhe entregar o amor de mãe, após seu filho sair de cena, responde: "Morreria amanhã".  

Hubert Minel é um jovem angustiado, com enorme potencial e talento, que se vê preso, não pela figura da mãe em si, mas por precisar extravasar de alguma forma todo aquele sentimento contido. Chantale é a representação de todos os conflitos que Hubert vive, não os conflitos em si. O ódio que nutre por sua mãe é colocado ao espectador em forma de desafio. "Quem diz que nunca odiou sua mãe, nem que tenha sido apenas por um momento, é um hipócrita". É claro que a convivência diária nem sempre é fácil e navega em mares calmos, mas, em diversos momentos, o comportamento de Hubert, e também de sua mãe, chega a ser ridículo. O rapaz tem a mania de achar que sua vida é um inferno apenas por não ter seus caprichos atendidos como querer morar sozinho com apenas 16 anos por não conseguir conviver em harmonia com sua mãe. Se pensarmos bem, estes momentos parecem ser intrínsecos à rebeldia adolescente, mas é preciso também se lembrar de que devemos valorizar o que temos de bom e, por mais que Hubert seja uma pessoa instável e tenha seus conflitos, ele também tem, pelo menos, um mínimo de capacidade cognitiva para perceber que sua vida não é  nem um pouco ruim. A depressão pós-moderna parece querer devastar as mentes e os lares de pessoas que têm tudo para viver em paz.



Tendo em vista o insucesso em desenvolver com eficiência a proposta do conflito entre mãe e filho, e sua consequente inconsistência dramática, além da falta de originalidade estética que é resultado de um mosaico de influências, funcionando mais como homenagens a grandes cineastas, do que evidenciando um estilo próprio , é equivocado afirmar que Eu Matei Minha Mãe é uma obra-prima, um filme genial. Não o considero um filme ruim pois visualmente é de uma beleza rara e tem bons momentos , apenas distante do status ao qual tem sido elevado. Em Amores Imaginários, seu segundo filme, Dolan mantém os erros e acertos de Eu Matei Minha Mãe. Além das influências já citadas e das referências cinematográficas explícitas como a James Dean e Audrey Hepburn , a história de um triângulo amoroso imaginário tem importantes elementos em comum com Jules e Jim (1962), de Truffaut, e Os Sonhadores (2003), de Bertolucci. O jovem ator, roteirista e diretor muda o foco da relação mãe e filho para a paixão platônica, mas mantendo o egoísmo como característica marcante de seus personagens principais "Quando digo nós, falo por mim", afirma, com frieza, uma personagem. 

As poéticas câmeras lentas marcadas por uma trilha sonora pulsante, e os recorrentes closes em objetos, em nada diferem de seu longa de estreia, mas, desta vez, sem o impacto de ser um début. Ao analisar a obra de Dolan é inevitável não lembrar daquelas bandas que fazem versões de músicas consagradas. Eu tinha o hábito de ir a shows de bandas cover dos Beatles, uma das minhas preferidas. Algumas eram tão boas e recriavam a sonoridade de forma tão perfeita, que, ao fechar os olhos, parecia que nos transportávamos para um show da banda original. Deixando de lado os adjetivos agressivos que usei em minha crítica de Eu Matei Minha Mãe e, após examinar de forma mais ponderada a obra de Xavier Dolan, me atrevo a dizer que, apesar da qualidade técnica de seus filmes, por enquanto, o rapaz é apenas um jovem muito talentoso, acima da média, mas nada mais que um cineasta cover. Sua próxima obra, Laurence Anyways, está prevista para ser lançada em 2012. Me surpreenda, Dolan.

Por: Mattheus Rocha




 

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  1. Tive a grande oportunidade de conhecer os trabalhos do Xavier Dolan, aprecio a sua iniciativa de fazer projetos tão originais, e principalmente pelas suas influências.
    Eu Matei A Minha Mãe e Os Amores Imaginários, é apenas um começo de uma grande acervo de futuras obras primas contemporâneas.

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  2. João Paulo Soares10 de julho de 2011 02:22

    Ótimo!
    Depois de assistir Os Amores Imaginários, fiquei martelando no meu dia a dia diversas referências do filme e do diretor, ator e roteirista, sobre como ele inseriu tantos fios numa única obra.
    O filme tem uma personalidade, às vezes narcisista ou pretensiosa que de uma forma ou outra chamam atenção para o que o Dolan faz. Nessa crítica, consegui ver um texto que ligasse tantos pedaços e impressões soltas por aí.

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  3. ADOREI O FILME J'AI TUÉ MA MÉRE. Acho que Xavier Dolan para a idade que tem será realmente um caso SÉRIO no futuro cinema. Muito bom.
    Graça Martins
    http://euelaeaescrita.blogspot.com

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