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Rauno transborda em emoção ao cantar num karaokê. A letra da música diz “eu não invejo aqueles que têm uma vida dupla, às vezes acho que uma vida só é suficiente”. Em Três Homens e Uma Noite Fria, do diretor finlandês Mika Karismäuki (da boa comédia O Ciúme Mora ao Lado), três amigos com sérios problemas pessoais resolvem afogar as mágoas em um bar melancólico, na véspera de Natal. A letra da canção traduz parte do drama desses homens, em um filme não necessariamente triste. Rauno é um ator decadente e, no leito de morte da esposa, apanha do filho revoltado por desentendimentos do passado. Erkki é impossibilitado de ver o filho pela ex-esposa e tem o interesse de “aprender a ser egoísta’’ para lidar melhor com as vicissitudes da vida. Marti vive às birras com a mulher, mesmo quando ela está prestes a dar à luz.

O espírito natalino contamina’’ o filme, que não se distancia de outros dramas com a mesma temática em relação aos sentimentos propostos do período, como: redenção, solidariedade, amizade etc. A sequência das crianças cantando Noite Feliz é decisiva para que se possa notar uma atmosfera reconfortante, mesmo quando situações inóspitas estão no cerne da trama.  O lugar comum, no entanto, não prejudica a obra. Três Homens e Uma Noite Fria é um filme agradável. O tom opaco da fotografia que representa o rigoroso inverno do país escandinavo também preenche o aquecido bar frequentado pelo trio. Apesar do bom humor deles – garantido pelas generosas doses de Vodka, claro – as cores escuras ilustram a apatia e preocupação devido às angústias que assolam cada um deles. 

O expressivo olhar de Erkki com terno e paletó igualmente escuros é representativo. O  número musical de cada um deles é, seguramente, um dos melhores momentos do filme. Cada música os representa de determinada forma e sintetiza as turbulências das suas vidas. Em determinado momento da apresentação de Marti, ele declama com intensidade “Você foi para outra cama”. Óbvia alusão ao fato de desconfiar (ou ter certeza) de que fora traído pela esposa. As canções contribuem para a catarse de sentimentos

O dono do estabelecimento, ao convocar a todo o momento uma nova apresentação, se transforma numa espécie de psicólogo, que ajuda o trio a expor seus pesares, e o bar transforma-se num divã, ou numa espécie de “Associação de Desesperados Anônimos”. No desespero expresso nas letras das músicas existe um fio de esperança. É Natal. Assim como no recente O Ciúme Mora ao Lado, Mika Karismäuki concebe um filme de bons personagens, diálogos inteligentes e situações curiosas. Apesar de ser um drama, Três homens e Uma Noite Fria jamais desce ladeira abaixo no exagero melodramático. Este é um filme natalino, preenchido por sentimentos otimistas, solitários, agradáveis. No fundo do poço existe uma mola. Clichê? Sim, e daí? Estreia: 30 de novembro.

Três Homens e Uma Noite Fria (Kolme Viisasta Miestä) - 105 min
Finlândia - 2008
Direção: Mika Kaurismäki
Roteiro: Mika Kaurismäki, Pertti Sveholm, Timo Torikka, Petri Karra, Irina Björklund, Kari Heiskanen
Com: Kari Heiskanen, Pertti Sveholm, Timo Torikka, Irina Björklund, Tommi Eronen, Peter Franzén


Por: Bruno Mendes

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