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Os produtores de Pequena Miss Sunshine (2006) acertaram novamente. Após dois anos, finalmente vai chegar aos cinemas brasileiros Trabalho Sujo, uma bonita tragicomédia, na qual pessoas comuns, inseguras e frustradas de uma família loser procuram seu sustento e independência financeira a qualquer custo. Rose (Amy Adams) tem a autoestima tão baixa, que precisa ficar repetindo para si mesma frases de incentivo, em um recital diário obviamente proveniente de livros de autoajuda. Cheerleader e namorada do quarterback do time na época da escola, despertava inveja em suas colegas, mas, como uma diarista trintona e amante de Mac (Steve Zahn, o mesmo da high school, que a preteriu para casar com outra) ela só consegue sentir pena de si mesma.

Seu filho, Oscar (Jason Spevack), de oito anos, demonstra não ser como os colegas "normais" de sua idade, e as reclamações de sua professora e diretor demonstram o despreparo que algumas escolas têm em lidar com crianças diferentes. Sua irmã mais nova, Norah (Emily Blunt), é uma típica jovem rebelde, que não consegue parar em um emprego, por brigar com tudo e todos evidentemente avessa a lidar com figuras de autoridade , e ainda mora com seu pai, Joe (Alan Arkin), que tenta, de formas não convencionais, ganhar dinheiro para dar um moderno par de binóculos ao seu neto, que está prestes a fazer aniversário.

A bonita relação avô/neto de Joe e Oscar lembra muito o papel de Alan Arkin em Pequena Miss Sunshine, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. E a relação entre as irmãs vai levar Rose a trabalhar com Norah em um empreendimento este sim nem um pouco convencional. Após saber que o ramo de limpeza de cenas de crime e remoção de lixo tóxico rende uma boa grana, a ala feminina da família Lorkowski vai se meter em situações que em determinados momentos beiram a comédia pastelão como quando Norah cai em um colchão todo ensanguentado no meio da rua e, em outros, tocam em um drama profundo, como em uma bela cena, na qual a irmã mais nova lembra do suicídio da mãe. 


Com o repentino sucesso no negócio, a frustração de Rose vai dando lugar a uma empolgação que deixa no passado coisas que ela teve que engolir (apesar de ainda guardar alguns traumas), como quando, em uma situação tensa, é confrontada e ouve: "Você não é nada". Trabalho Sujo também remete o espectador a uma reflexão sobre os julgamentos que pessoas fazem de outras apenas pelo que possuem, ou seja, pelos seus bens materiais, esquecendo-se que o que conta, realmente, é o interior de cada um e suas ações. 

A tradução do título original (Sunshine Cleaning) para o português é equivocada, pois remete a uma interpretação simplista do drama da família Lorkowski. Apesar do trabalho ser realmente sujo, Rose e Norah não só querem, como precisam, limpar suas próprias vidas e, além do retorno financeiro, têm a possibilidade de dar apoio a pessoas em situações difíceis, como quando a irmã mais velha senta ao lado de uma senhora que acabou de perder seu marido, como se fosse parte da família (talvez também se fortalecendo frente a uma figura materna, que perdeu prematuramente em sua vida).

No chá de bebê de Paula, uma ex-colega de escola, Rose deixa o sonho de ser corretora de imóveis de lado, para, em uma cena comovente, jogar suas mágoas pra fora e se valorizar frente a uma espécie de julgamento informal. A ajuda de Winston (Clifton Collins Jr.), dono de uma loja de produtos de limpeza, é essencial para o crescimento da Sunshine Cleaning e para a autoconfiança de Rose. A cena inicial, de um homem saindo de seu carro para cometer suicídio em uma loja de armas, é ótima e prepara o terreno para esta excelente tragicomédia. Estreia: 24 de dezembro

* Estreia adiada para: 01 de janeiro de 2011.

Trabalho Sujo (Sunshine Cleaning) - 91 min
EUA - 2008
Direção: Christine Jeffs
Roteiro: Megan Holley
Com: Amy Adams, Emily Blunt, Alan Arkin, Jason Spevack, Steve Zahn, Mary Lynn Rajskub, Clifton Collins Jr.



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