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Discovery Channel na tela grande. O documentário Oceanos, co-produção entre França, Suíça e Espanha, dirigido pela dupla Jacques Perrin e Jacques Cluzaud, sufoca-nos de tédio na anoxia do lugar-comum. Oceanos é o novo produto do selo verde Disney Nature, responsável também pelo doc Terra (2007). Partindo da ideia de descobrimento (em sentido amplo), tanto entendida como a descoberta de novos territórios, à época das grandes navegações, como a novidade do desconhecido, imprimida pela primeira vez na percepção de um garoto − que começa a ter contato com os segredos do mar, transmitidos pelos mais velhos −, o documentário não chega nem perto do encantamento causado pelas aventuras épicas de Jacques Cousteau

Longe de agitar as águas do marasmo, acrescentando ventos insólitos a um argumento de forte apelo, não difere em nada dos programas que são exibidos há anos pelo Discovery Channel e pelo National Geographic. Algumas imagens inclusive podem ser consideradas datadas, ou seja, foram exibidas à exaustão nos canais pagos que tratam da vida natural. Alguns exemplos batidos são baleias se alimentando em grupos; orcas demonstrando habilidade e inteligência caçando focas que se encontram na praia; turbilhões de peixes em postura defensiva (juntos venceremos!); pinguins navegando por águas gélidas como minitorpedos; tubarões-brancos saltando do mar como ogivas nucleares lançadas por algum submarino incógnito nas profundezas, abalroando focas desprevenidas; gaivotas varando a superfície como flecha em busca de peixes; filhotes de tartaruga recém-nascidos sendo predados por aves litorâneas; e golfinhos, golfinhos e mais golfinhos. Depois, mais um pouco de golfinhos... 

Por terem sido utilizados como elementos de transição de cenas (os cetáceos = não só, mas também os parentes do Flipper), transparece a impressão de que, por causa da repetição obsessiva, parte das filmagens foi realizada num aquário do Sea World, e não em mar aberto, e depois enxertada no processo de montagem. Uma ou outra captação da natureza em estado bruto se salva – a sequência em que um mergulhador nada ao lado de um grande tubarão branco faz com que ajeitemos nossa postura na poltrona, mesmo assim a Semana do Tubarão no Discovery é muito mais emocionante −, mas não há nada inédito. 


A sensação é a de estarmos numa daquelas lojas de departamentos em que filmes da vida selvagem, embalados por melodias nirvânicas de Yoga, são projetados na parede (ou num telão) e entorpecem nossos sentidos enquanto aguardamos que o frenesi de consumo de nossas acompanhantes cesse. As ondas também são personagens do doc, mas, para quem estiver interessado em morras monstruosas, aconselho outro documentário, Riding Giants (2004), de Stacy Peralta, ou o livro A Onda: em busca das gigantes do oceano (2010), da jornalista canadense Susan Casey – editora-chefe da O, The Oprah Magazine −, que acaba de ser lançado aqui pela Editora Zahar. Leitura de tirar o fôlego!

A vertente política do doc só tangencia a verdade inconveniente: os resultados da ação humana no ecossistema marinho. A pesca predatória e a poluição dos mares são pautas da agenda ecológica abordadas timidamente na parte final da produção. O dedo poluído da humanidade, carregado de bactérias do dito desenvolvimento (ou progresso), que macula a assepsia da natureza, não é o foco, mas apenas parte do projeto maior (infelizmente). Nossas pegadas destrutivas não deixam rastros significativos, o que suscita leve desconforto, mas não a indignação necessária. Uma curiosidade: na versão em inglês, o doc foi narrado pelo ex-007 Pierce Brosnan. Você não vai precisar do site Surfline para te alertar desta: Oceanos só vai ser comparado àquele swell perfeito, arrebentando num pico selvagem e desconhecido, nunca antes surfado pelas retinas, por quem jamais assistiu ao Discovery Channel ou ao National Geographic. Tinha tudo para ser o que não foi. Estreia: 17 de dezembro.

Oceanos (Océans) - 104 min
França, Suíça, Espanha - 2009
Direção: Jacques Perrin, Jacques Cluzaud
Roteiro: Christophe Cheyson, Jacques Cluzaud, Laurent Debas, Stéphane Durand, Laurent Gaudé, Jacques Perrin, François Sarano
Narração (versão em inglês): Pierce Brosnan
Narração (versão em francês): Jacques Perrin



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  1. Muito boa a resenha. Eu acho que ainda me aventuro já que não costumo mesmo assistir programas sobre vida marinha na discovery. E tem o fetiche de ver tudo na telona, neh?!

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  2. Penso que a crítica foi bem elaborada e quanto aos documentários de Jacques Cousteau é a mais pura verdade, na minha infância e parte da adolescência acompanhava sua aventuras que me encantavam, no entanto, e aqui deixe-me discordar um pouco das colocações, o que o filme demonstra é a beleza poética do oceano, se as imagens são "repetitivas" ao grande público ou aos críticos é uma pena, pois as imagens espetaculares não me cansam e sim me trazem uma paixão ainda maior pelos seres que pouco ou quase nunca vejo, assim como a descoberta de novos habitantes marinhos, sem contar o fascinio pelas ondas gigantescas fazendo aumentar ainda mais o meu respeito pelos mares. Por fim quero dizer que me concidero um "cinéfolo" de carteirinha e que documentário bem feitos me colam na poltrona. Um grande abraço. Luiz

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