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A catarse de uma apresentação da Orquestra Bolshoi contagia os músicos que se debulham em lágrimas na sintonia perfeita dos acordes. Não apenas os músicos na apresentação choram, a plateia e os responsáveis pela produção do evento, igualmente, vibram, deliram. O espectador, idem. No belíssimo O Concerto, a música clássica é homenageada em uma obra que preza pelo espetáculo visual – mediante a direção segura, com flashbacks adequados, cortes certos e o ritmo constituído – e sonoro – a trilha sonora dispensa comentários –, com um roteiro no qual privilegia a construção dos personagens, valorizando as particularidades de cada um.

Na ditadura comunista russa, o maestro Andreï Filipov (Alexeï Guskov) perdera seu emprego na Orquestra Bolshoi. Hoje, aos 50 anos, trabalha como faxineiro no teatro que era o antigo palco de suas glórias. Ao interceptar um fax no qual a orquestra russa é convidada para uma apresentação na França, ele descobre uma oportunidade para reunir antigos amigos músicos e viajar no lugar da orquestra original. Será que a ideia maluca tornará seu sonho de voltar aos tempos áureos realidade? Destaco como grande mérito desta produção o fato de não se ater na busca exclusiva de uma resposta para o seguinte questionamento: a aventura megalomaníaca vai dar certo ou não?

A principal proposta do roteiro não é destacar a inconsequência do maestro e do grupo de músicos, mas expor os motivos nada cômicos que os motivaram nesta empreitada. O tom da história, no entanto, é leve e preenchido por irresistível frescor cômico com os exuberantes personagens. Alguns ex-músicos produzem filmes pornográficos de décima categoria, outros vendem celulares chineses... sempre no intuito de faturar alguns trocados, eles esbanjam senso de humor e, ao chegarem à França, não demonstram um pingo da "compostura" exigida para quem vive no mundo da música clássica. Em compensação, o diretor da orquestra, o comunista Ivan Gavrilov (Valeri Barinov) demonstra destempero e deseja encontrar integrantes do partido comunista francês na viagem ao país. 



O peso dramático na história é conferido por Andrei Alexei Guskov exibe talento ao conceber um homem que, apesar do otimismo com as novas possibilidades, transfigura no semblante a imagem de um passado que ainda o atormenta – e pela contida e melancólica Anne-Marie Jacquet (a belíssima Mélanie Laurent), a prestigiada solista que acompanha o grupo na jornada. O objetivo do grupo é o mesmo, mas cada personagem tem um anseio íntimo na jornada rumo à França. Segredos e marcas do passado são postos em cheque em uma comédia fincada na valorização dos personagens, do combustível humano e, claro, da música.

O Concerto traz o intrépido ressurgimento de uma orquestra esfacelada por um regime político. A música é um dos elementos que define e delimita os personagens em um contexto de traumas contundentes. O resgate musical, no entanto, configura-se como um alento para estes músicos (e para o espectador), numa bela homenagem à música clássica. O longa foi indicado ao 68º Globo de Ouro na categoria Melhor Filme de Língua Estrangeira. Estreia: 24 de dezembro.

O Concerto (Le Concert) - 119 min
França, Itália, Romênia, Bélgica, Rússia - 2009
Direção: Radu Mihaileanu
Roteiro: Radu Mihaileanu, Matthew Robbins, Alain-Michel Blanc - Baseado na história original de Héctor Cabello Reyes, Thierry Degrandi
Com: Alexeï Guskov, Dimitri Nazarov, Mélanie Laurent, François Berléand, Miou Miou, Valeri Barinov, Lionel Abelanski, Laurent Bateau 



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