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O Bom Coração, além de ser um belo e triste filme, rende um interessante encontro entre duas gerações de grandes atores: o jovem Paul Dano, de Onde Vivem os Monstros e Encontro Explosivo, e o veterano Brian Cox, de Red - Aposentados e Perigosos. Essa nova geração de atores está mostrando a que veio e contracenando de igual para igual com nomes consagrados. Além de Paul, também vêm se estabelecendo na indústria e merecem destaque Jesse Eisenberg de A Rede Social , Michael Cera de Scott Pilgrim Contra o Mundo e Aaron Johnson de O Garoto de Liverpool.

Lucas (Paul Dano) é uma espécie de Alexander Supertramp de Na Natureza Selvagem (2007), mas com uma personalidade mais retraída e não tão rebelde. Ele vive como um mendigo: não tem casa, família ou aspirações. É um rapaz que não segue e não entende as vicissitudes do convívio em sociedade, talvez por ter um coração tão bom e altruísta, que acaba sendo engolido pelo sistema capitalista. Uma analogia com um transplante de coração caberia bem neste caso. É preciso ter compatibilidade de tipo sanguíneo entre o doador e o receptor, caso contrário o órgão será rejeitado.

E é assim que Lucas vive ou melhor, sobrevive. Como um órgão rejeitado pela sociedade. O rapaz não sabe o que fazer de sua vida e tenta, sem sucesso, cometer suicídio. No hospital, ele divide o quarto com Jacques, que sobreviveu ao quinto ataque cardíaco. Rabugento e preconceituoso, o old man cospe seu veneno, com uma insana metralhadora de insultos, a quem ousar cruzar seu caminho, mesmo que seja para tentar ajudá-lo. Apesar das fitas de técnicas de relaxamento que costuma ouvir, ele não consegue tirar o pé do acelerador da irritação. O roteiro dispensa os habituais flashbacks para explicar no passado os atuais conflitos individuais, preferindo acentuar as personalidades dos personagens por intermédio de atitudes (o que contribui para a fluidez da narrativa).


O encontro entre Lucas e Jacques irá mudar completamente o destino dos dois. O velho que luta para viver (apesar de manter hábitos nem um pouco saudáveis) não aceita que um jovem queira jogar a vida pelo ralo. Jacques resolve tirar Lucas da rua e o leva para trabalhar em seu bar e morar em sua casa (no sótão da espelunca). O retrógrado e solitário barman, interpretado brilhantemente por Brian Cox, faz do jovem seu aluno e herdeiro, já que vê nele a esperança de manter seu clube de  alcóolatras, pois sua saúde está em frangalhos. E esse clube tem regras: nada de atender gente de fora, ser amigo dos clientes ou admitir mulheres em seu habitat.

A bizarrice dos clientes rende ótimos diálogos e momentos entre os personagens nonsense (como o escritor com bloqueio, o dono de uma floricultura ou um cara que toma café todo dia, na mesma hora e da mesma forma, sem dar uma palavra sequer) em cenas muito bem construídas, com uma pegada teatral habilmente conduzida pelo diretor e roteirista francês Dagur Kári. No começo, Lucas demora a se adaptar ao bar e à nova casa, mantendo inclusive o hábito de dormir no chão, mesmo tendo uma cama à sua disposição. Mas, com sua vontade de ajudar e seu bom tato em lidar com o ser humano , aos poucos o rapaz vai pegando o jeito do negócio.

Mesmo tendo um professor arrogante, adepto da excêntrica (para não dizer bizarra) filosofia de bar e, por consequência, sem fé nas pessoas, o bom coração de Lucas demonstra ser o que faltava para equilibrar a vida de Jacques e lhe dar esperança. Os papéis vão se invertendo e o teimoso e veterano barman dá sinais de que pode vir a mudar. A melancólica trilha sonora permeia a relação, que vai evoluindo da amizade interesseira de Jacques para algo próximo a pai e filho. Mas a rotina da dupla é abalada pela chegada de uma ex-aeromoça (Isild Le Besco), demitida por ter medo de voar de avião... A presença de uma mulher em um ambiente predominantemente masculino altera desde as cores do local, até o convívio entre os clientes e, principalmente, entre Lucas e Jacques. O Bom Coração é um reflexivo e comovente drama. Estreia: 25 de dezembro.

O Bom Coração (The Good Heart) - 95 min
Dinamarca, Islândia, EUA, França, Alemanha - 2009
Direção: Dagur Kári
Roteiro: Dagur Kári
Com: Paul Dano, Brian Cox, Isild Le Besco



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