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É necessário deixar de lado crenças particulares (ou a falta destas crenças) para avaliar um filme religioso com algo ao menos próximo da “inatingível” imparcialidade. É verossímil, para não dizer óbvia, a ode à Nossa Senhora Aparecida em Aparecida – O Milagre. Mas o exagero em torno desta homenagem é flagrante e comprometedor. O filme é centrado na história de Marcos, que tinha uma infância feliz. Apesar dos escassos recursos financeiros, sonhava em ganhar uma chuteira e fez uma promessa para Nossa Senhora Aparecida, no intuito de obter o presente. Seu pai (Rodrigo Veronese), no entanto, morre em um acidente de trabalho e ele sente-se traído pela santa. 

Depois de 35 anos, Marcos (Murilo Rosa) é um empresário bem sucedido, mas infeliz devido a problemas de relacionamento com o filho Lucas (Jonatas Faro). Materialista, e frio, o protagonista precisa de uma  espécie de provação para reavaliar a fé e as decisões em sua vida. O aspecto positivo de
Aparecida – O Milagre é determinado pela boa atuação do elenco, em especial do protagonista Murilo Rosa, que demonstra versatilidade ao conferir ao personagem momentos de fragilidade emocional e também austeridade e arrogância. Marcos é um homem amargurado e ranzinza, mas igualmente confuso e fragilizado. O manejo dessas emoções é amparado com inteligência pelo ator. 

Jonatas Faro, Leoana Cavalli e Bete Mendes também desempenham bem seus respectivos papéis. Infelizmente, os diálogos chegam a ser constrangedores de tão rasos, fato que compromete a competência dos atores. É difícil aceitar (ou digerir) quando Júlia (Bete Mendes), mãe de Marcos, dirige-se ao neto Lucas dizendo: “Seu pai é cabeça dura desde pequeno, mas ele te ama”.  Com o roteiro que não desenvolve as situações com o mínimo de interesse, o filme mais parece um especial da Globo ou uma mini-série, pois a ênfase é na ação, nos acontecimentos. 



Os conflitos acontecem de forma repentina e ininterrupta. Por exemplo: Lucas ganha um carro do pai como recompensa por realizar uma tarefa do trabalho de forma satisfatória, e na sequência seguinte, uma situação tensa envolvendo o encontro entre Lucas e um vendedor de drogas transmuta o ocorrido minutos atrás em uma sucessão de conflitos com consequências extremamente negativas. O encadeamento narrativo é artificial, traz ao espectador a sensação de pressa com que a história seja contada logo. O desenvolvimento dos personagens e a construção cautelosa das situações e do posterior desenrolar dos fatos são negligenciados em prol de uma narrativa frenética e previsível. O filme, por outro lado, derrapa em um quesito no qual muitas obras de temática religiosa também deslizam. É extremamente panfletário, unidirecional. 

Em vez de discutir a possível importância da fé cristã no conforto do ser humano atordoado com problemas terrenos, ou questionar a possibilidade de existência do milagre mediante a crença e as promessas, a propaganda excessiva em torno do caráter milagreiro da santa é outro elemento que transfigura o caráter superficial da obra.  É do entendimento de todos a flagrante impossibilidade de se discutir religião, logo, não cabe questionar, debater ou invalidar a fé de determinado grupo de pessoas, assim como é desnecessário apontar como viável ou não a existência de  milagres atribuídos à santa. As críticas ao filme sobre Nossa Senhora Aparecida, contudo, são legítimas e, com o perdão do chavão, não há milagre que possa salvar um longa com tantos problemas. Estreia: 17 de dezembro.

Aparecida – O Milagre - 90 min
Brasil - 2010
Direção: Tizuka Yamasaki
Roteiro: Paulo Halm, Marco Schiavon, Carlos Gregório, Pedro Antônio
Com: Murilo Rosa, Maria Fernanda Cândido, Jonatas Faro, Leona Cavalli, Rodrigo Veronese, Bete Mendes



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