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Uma das instituições responsáveis (talvez a mais responsável) por moldar o caráter de alguém é a família. Quando os critérios morais são deixados de lado na relação entre pais e filhos as consequências costumam ser nefastas. Depois da trilogia O Poderoso Chefão, Francis Ford Copolla volta a destrinchar as nuances do ambiente familiar no excelente Tetro, filme pontuado por uma história densa e com aspectos visuais belíssimos. No filme, Bennie (Alden Ehrenreich) viaja para Buenos Aires e reencontra o irmão Tetro (Vincent Gallo) um ex-escritor amargurado que insiste em esconder o passado e, como ele mesmo diz, está “divorciado da família”.

Tetro incomoda-se com a presença do irmão e com o fato do caçula investigar o seu passado. O bom roteiro de Copolla jamais vilaniza ou transforma o personagem Tetro em uma vítima indefesa; em determinado momento ele chama o irmão de ‘amigo’ na frente de uma garçonete e chama determinado amigo de ‘irmão’ na frente de Bennie, que fica claramente magoado com atitude insensível. O sujeito ranzinza, no entanto, revela-se carinhoso com a esposa, tem faro artístico – é admirado pelo irmão, pois costumava levá-lo para assistir Sapatinhos Vermelhos no cinema, assim como a óperas – e encontra-se claramente fragilizado devido ao misterioso passado que o atordoa.




A relação turbulenta entre Bennie e Tetro é personificada pelo excelente trabalho dos dois atores que compõem com eficácia a personalidade complexa e a inquietação dos personagens. O embate verbal entre eles é extremamente denso - assim como discussões tão bem representadas na trilogia O Poderoso Chefão e em Apocalipse Now. Tecnicamente Tetro é impecável. O preto e branco da fotografia destaca belíssimas sombras que contribuem no destaque de semblantes dos personagens (o detalhe me lembrou Cidadão Kane). Em determinada sequência, na qual Tetro discute com o irmão e a esposa, ambos aparecem no plano enquanto só sua sombra é mostrada. O plano possui beleza estética, e também é significativo no ponto de vista narrativo como metáfora, afinal aquele Tetro no momento da conversa esconde segredos e expõe somente sua ‘sombra’, não sua imagem verdadeira, não sua verdadeira alma.

Em outro momento, o contraponto entre o vermelho de um vestido e o preto e branco, na cena de uma montagem teatral, se traduz numa bela cena. É fato que o grande clássico da filmografia de Copolla é a trilogia O Poderoso Chefão – com destaque para os dois primeiros – mas considero comparações infundadas, pois cada trabalho é responsável pela sua premissa. Tetro é um filme com densidade psicológica e um roteiro coeso com a estética intimamente relacionada à trama, o que não resulta num filme belo, porém vazio. Apesar de aparentemente não ter pretensões comerciais, não é um filme difícil. A narrativa é ágil e atrativa. Copolla entende de famílias conflituosas, e mais ainda, de cinema. Estreia: 10 de dezembro.

Tetro (Tetro) - 127 min
EUA, Itália, Espanha, Argentina - 2009
Direção: Francis Ford Copolla
Roteiro: Francis Ford Copolla, Mauricio Kartun
Com: Vincent Gallo, Alden Ehrenreich, Maribel Verdú, Silvia Pérez, Rodrigo De la Serna, Erica Rivas, Mike Amigorena, Lucas Di Conza



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  1. Bruno, ótima crítica!
    Vi o filme ontem e tive orgasmos cinematográficos!!! Sai atordoada com toda aquela carga emotiva, as imagens intensas, os sentimentos profundos que percorrem o filme inteiro.
    O PB deu uma dramaticidade à história, uma densidade... Nossa, presente de fim de ano esse filme! E viva o Coppola! A-do-ro!

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