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A primeira coisa que me veio à mente, logo no início do filme, foi: o que aquela mulher branca, de aparência frágil, está fazendo sozinha num descampado isolado africano? E a pergunta permanece ao longo da projeção. Maria - a atriz francesa Isabelle Huppert, de A Professora de Piano (2001) -, diz que não se pode ter coragem na França, que viver com conforto é um estilo de vida covarde. A esse argumento ela se agarra como a um bote salva-vidas no meio do oceano e percorre toda a história de Minha terra, África, dirigido por Claire Denis, de Desejo e Obsessão (2001).  

O problema é que no seu “bote” de coragem só cabe uma pessoa - ela mesma - e sua produção de café. Numa cena interessante, um dos meninos do grupo armado rebelde encontra um objeto dourado que mais parece uma pequena barra de ouro. Mas logo descobrimos que trata-se de um mero isqueiro ao qual o líder do grupo se refere, de forma pejorativa, como White Material (título original), ou seja, coisa de branco. Nesse momento, e em vários outros, o desagrado e até o ódio dos negros com a presença dos brancos vai se revelando através de olhares, gestos e palavras. O clima é tenso e parece que só Maria se recusa a enxergar que a situação piora cada vez mais.  

O marido de Maria, André (Christopher Lambert, o eterno Highlander, gastando seu ótimo Francês), não acredita mais que é possível permanecer na fazenda, pois eles estão cada vez mais isolados e expostos a invasões dos rebeldes e ao fogo cruzado. Seu filho adolescente, Manuel (Nicolas Duvauchelle), mostra-se claramente deprimido e desorientado. Todos os negros, temendo a morte, seguem fugindo para longe. Os rebeldes rondam a região, o governo combate. Homens, meninos e meninas - filhos dos massacres, do descontentamento com a presença dos colonizadores e da história africana de guerras civis - morrem e matam. Todos estão com medo, menos Maria.  

Diz-se que o medo é o que regula a coragem como forma de auto-preservação, mas parece que Maria se alimenta mais de coragem que de medo. Uma coragem em defesa do seu próprio conceito de coragem (viver fora do conforto) e do produto do seu trabalho, o café. O mundo desmorona a sua volta, mas ela tem coragem. Só que quando a coragem não é usada para defender pessoas, e sim como uma atitude teimosa e alienada, ela pode ser tão letal quanto uma espingarda. Minha terra, África é um longa de ficção com jeito de documentário, com câmera lenta contemplando os cantos daquela fazenda, as pessoas... Mas a pergunta inicial permanece, não porque não sabemos as razões dos brancos estarem na África, visto que muitos já até são cidadãos de lá. A questão é outra: África, terra de quem? Estreia: 05 de novembro.

Minha Terra, África (White Material) - 106 min
França, Camarões - 2009
Direção: Claire Denis
Roteiro: Claire Denis, Marie N´Dianye, Lucie Borleteau
Com: Isabelle Huppert, Christopher Lambert, Nicolas Duvauchelle, Isaach de Bankolé, William Nadylam

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  1. Quando vi o trailer tive a mesma sensação que em Jardineiro Fiel e tantos outros filmes de "brancos" defendendo "negros": Esses fazem ou por culpa ou teimosia, porque, no final, ninguém lá (na África) precisa deles!

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  2. Quanta perspicácia, Mônica. Gostei da resenha, bem profunda. Me lembrou o livro Muito Longe de Casa: Memórias de um Menino-Soldado - livrão, aliás. Beijos!

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  3. Não conheço o livro, Renan, mas valeu a dica! Afinal, a gente precisa estar sempre com as leituras em dia para escrever sobre qualquer coisa.

    Beijos.

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