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Enterrado Vivo é um grande pequeno filme 


O simples fato de Enterrado Vivo ser um longa metragem de uma hora e meia, que se passa inteiramente em um caixão, já é digno de atenção. Apesar de derrapar em alguns clichês dos thrillers hollywoodianos que envolvem sequestro e terroristas, a pegada de um diretor espanhol (Rodrigo Cortés) dá uma dinâmica diferente ao filme e o torna uma das melhores surpresas do ano. Não bastasse o desespero de Paul Conroy (Ryan Reynolds), um motorista civil que se vê em uma situação extrema ao ser sequestrado por insurgentes iraquianos, as críticas à natureza humana e à política estadunidense remetem a uma reflexão que acompanha a indignação do protagonista.

Se a massa está controlada, para que se importar com um motorista preso em um caixão no Iraque? O mais importante é que a notícia não ganhe a grande mídia e, consequentemente, o conhecimento do público, é o que pensam as pessoas que deveriam ajudar Paul, que divide o caixão com um isqueiro e um celular. A atuação de Ryan Reynolds é competente e vê-lo "contracenando" com os objetos em seu claustrofóbico cativeiro é angustiante. Os diálogos por telefone com autoridades militares e seu empregador chegam a ser engraçados, de tão absurdos e, ao mesmo tempo, reais. É impossível não lembrar das vezes em que ficamos horas ouvindo respostas esdrúxulas de atendentes de telemarketing.

É triste ver que autoridades que deveriam zelar pelo bem estar coletivo não se importam com o ser humano de forma individual mas não é o conjunto de individualidades que forma o coletivo, ora bolas? Além do estímulo à reflexão, e, apesar de ter apenas um cenário, a parte técnica do filme é fora de série, com destaque para o som e a fotografia de Eduard Grau, que "brinca" de forma extraordinária com as luzes emitidas pelo celular, isqueiro e lanternas – fato que contribui para a tensão aumentar a cada cena. À medida em que Paul vai perdendo a esperança  no resgate, o envolvimento do espectador aumenta. Por ser um suspense underground de baixo orçamento, Enterrado Vivo é um grande pequeno filme
 




Enterrado Vivo emperra o seu potencial em uma trama com doses de humor negro...


Na completa escuridão, um homem respira desesperado e, ao tentar se levantar, bate a cabeça. Acende o isqueiro e constata que está preso em um caixão. O minuto inicial de Enterrado Vivo é agonizante, pois nada revela, além do desespero daquela situação extremamente claustrofóbica. Infelizmente, a trama do motorista de caminhão Paul Conroy (Ryan Reynolds), que acorda dentro do caixão com um isqueiro e um celular sem saber como foi parar ali, logo revela que ele fora sequestrado por terroristas iraquianos, além de não ser sustentada por um bom roteiro e uma direção que possa manter e alavancar a tensão inicialmente estabelecida.

O grande problema em Enterrado Vivo é o roteiro de Chris Sparling. Frágil e artificial, ele compromete o envolvimento do espectador com o desespero do protagonista, e afasta o público do horror com tramas mal exploradas. A situação que é claustrofóbica por si só é amenizada quando, por exemplo, Paul faz ligações para autoridades americanas no intuito de pedir socorro (óbvio), e a chamada é transferida para outro profissional, com a telefonista alheia ao seu sofrimento – pode-se até fazer um paralelo com o péssimo serviço de call Center das operadoras de telefonia aqui no Brasil

Entre vários pedidos de resgate, os diálogos tornam-se cômicos, e comprometem ainda mais o já fragilizado ritmo da narrativa. Aproveitando o ensejo do pós 11 de setembro, Enterrado Vivo alfineta a política internacional americana, pelo fato de as autoridades não negociarem com terroristas mesmo quando a vida de reféns está em jogo. A tentativa de derramar confetes políticos na trama não funciona. Concluindo, os elementos externos incorporados afrouxam o suspense e minimizam ao máximo qualquer impacto.

A direção de Rodrigo Cortés, por outro lado, insiste no clichê de indicar a todo o momento que a bateria do celular esgota pouco a pouco, e a trilha pulsante e vigorosa soa, para dizer o mínimo, inadequada. Temos a impressão, com o aumento repentino e ensurdecedor da música, que algo vai acontecer, mas nada acontece, claro, já que o sujeito está preso no caixão. Para piorar, em determinado momento, após Paul manter contato com o terrorista, um tema árabe toca: uma tentativa banal de estabelecer o vínculo entre o cidadão americano e o terrorista de “cultura diferente” – trash (no mal sentido).

Para finalizar a análise deste desastre, não dá para ignorar os constrangedores diálogos entre Paul e os familiares. Em meio ao desespero, frases do tipo “Eu só queria dizer pra você que te amo, mãe” e “Desculpa, Linda, eu devia ter ouvido você” são proferidas por um Ryan Reynolds irregular. Filmes como Por um Fio (2002) e Mar Aberto (2003) são rodados quase que exclusivamente em uma locação e garantem tensão, com a criatividade e intensidade da direção. Enterrado Vivo emperra o seu potencial em uma trama com doses de humor negro, alusão política, declarações apaixonadas e remorsos, menos horror. Estreia: 10 de dezembro.

Enterrado Vivo (Buried) - 95 min
Espanha, EUA, França - 2010
Direção: Rodrigo Cortés
Roteiro: Chris Sparling
Com: Ryan Reynolds




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  1. Aê, Bruno!
    Tá mandando bem pra caramba. Ainda não assisti ao filme, mas, pra ser honesto, penso que o detalhe do celular descarregando não pode ser considerado um clichê. A menos que seja um recurso muito utilizado em outros filmes semelhantes. Eu, pra ser honesto, desconheço. Do mais, gostei da crítica. Você sempre muito afiado.

    Um abraço,
    Maxsuel

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  2. Realmente é uma pena! Eu vi o trailer e achei que a ideia do filme é bastante inovadora, pensei que pudesse ser um bom filme... Hollywood ja não produz mais filmes de terror/suspense dignos de nota, e quando eu vi que a direção tinha um "tempero espanhol", achei que pudesse ser tão bom quanto o assustador REC.

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  3. Ta brincando cara , que filme vc assitiu , o filme é totalmente independente sem orçamento nenhum o roteiro é sim bem feito e o suspense foge e ao mesmo tempo utiliza os cliches para dar proseguimento a narrativa.Cara vc por acaso assistio o filme e desde o inicio pensou que o cara enterrado ia sobreviver mesmo...Vai alguem tentar filmar cenas como vistas no filme e desistir logo de inicio, o filme é o LUNAR no ano

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  4. Clichê é quando pessoas dizem "eu te amo" como se resolvesse algo, bateria acabando é um fato inevitável que ao contrário de um "eu te amo" envolve o questionamento de quem acompanha da irrealidade do que já é ficcional. Ao contrário que o Bruno diz, acho que tem sim um bom roteiro, até porque não é um tipo de filme que o roteiro importa. É problemático pensar em roteiro quando se pretende imitar algo que não segue roteiro, digo isso porque se trata de um pequeno momento da vida de alguém que desesperado, uma crítica ao que acontece ou deixa de acontecer só pode ser bem realizada por quem passou por algo semelhante.
    Vejo a classe média que fã de Tropa de Elite e seu sentimento de heroísmo que tem pelo Bope, puro marketing. Este filme não apresenta heroísmo, foi extremamente interessante em meio a um cinema tão marcado por uma política de puro marketing a experiência deste filme.

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