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A culpa é um sentimento que habita o universo do castigo. Quando alguém diz: “Menino, você comeu o bolo todo! Devia se envergonhar!”, pronto, a culpa ganhou vida, forma e importância. O menino vai se sentir humilhado ou não, vai comer o próximo bolo inteiro de novo ou não. Mas vai guardar o aprendizado de que há coisas que não se deve fazer, mesmo sem entender bem o porquê. E se essa mesma pessoa advertisse: “Menino, você comeu o bolo todo! Os outros meninos têm o mesmo direito que você. Isso está errado!”. Será que esse aprendizado semearia também a culpa ou ajudaria a construir a consciência do que é certo? Será que ter a consciência do que é certo ou errado também não seria uma forma de culpa?   

Fazer o que é certo tem como referência nossos valores morais, nossa estrutura social. E, em geral, fazer o certo demanda um equilíbrio entre o que nós desejamos individualmente e aquilo que é bom para todos. Nesse contexto, há pessoas como a personagem Kate, vivida pela excelente Catherine Keener, que levam a culpa muito a sério e carregam um bloco de concreto nas costas, utilizando esse sentimento para alimentar um outro: a própria melancolia representada pela impressão de que ser feliz é uma manifestação de egoísmo. 

O problema é que Kate, junto com seu marido Alex (o ótimo Oliver Platt) vivem de comprar móveis e objetos de decoração, por preços baixos, de pessoas recém-falecidas, e vendê-los por preços bem mais elevados - o que soa meio tragicômico e bem cínico. Kate faz lucro com a desgraça alheia, mas sofre e tenta compensar fazendo caridade. Em contraponto,  a personagem de Amanda Peet, Mary, utiliza de uma sinceridade neurótica e agressiva para se livrar da culpa que as mentiras produzem. Ela se mostra fria e amoral, jogando a culpa de suas frustrações no resto do mundo, principalmente sobre a avó ranzinza Andra (Ann Guilbert), vizinha de Kate e Alex. Enquanto Kate disfarça sua culpa como solidariedade, Mary utiliza a culpa como ressentimento.

E os personagens de Sentimento de Culpa, da diretora Nicole Holofcener - de Amigas com Dinheiro (2006) - vão desfilando suas vidas cotidianas, ornamentadas com suas pequenas ou grandes culpas. Um relato delicado e bem focado na natureza humana e seus conflitos, com um humor bem sutil e ácido, caracterizando-se mais como drama do que como comédia, com um excelente elenco. Em certo momento do filme, me perguntei até que ponto somos conectados uns aos outros através da culpa, em vez do amor. Talvez se importar demais com os outros ou consigo mesmo seja, de qualquer maneira, uma forma de demonstrar mais ou menos amor. No fim, somos todos culpados ou culpamos alguém pelas nossas derrotas ou por nossas vitórias, por sermos amados ou não, por sermos felizes ou não. Estreia: 29 de outubro.

Sentimento de Culpa (Please Give) - 90 min
EUA - 2010
Direção: Nicole Holofcener
Roteiro: Nicole Holofcener
Com: Rebecca Hall, Elizabeth Keener, Elise Ivy, Catherine Keener, Josh Pais, Amanda Peet, Oliver Platt, Ann Guilbert



Por: Mônica Lobo

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  1. Excelente resenha. Uma abordagem humana e construtiva da temática do filme! Kick ass!

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  2. Ótimo texto, contundente; fiquei interessada em assistir ao filme.
    :D

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  3. Aguçou meu interesse. verei o filme.

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  4. adorei sua crítica, foi bem oq eu senti assistindo mesmo :)

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