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"Pensar é moer... moer é pensar!". Depois de 9 anos sem dirigir um longa, André Klotzel - de Memórias Póstumas (2001) - não poderia ter escolhido argumento mais inusitado. E Selton Mello não poderia ter escolhido um personagem mais esquisito. O cara dubla o Liquidificador do título. Liquidificador com inicial maiúscula, pois a máquina é um dos protagonistas do filme, junto com a dona de casa e - taxidermista nas horas vagas - Elvira (interpretada brilhantemente por Ana Lucia Torre).

O roteiro do estreante em longas José Antônio de Souza é ousado e vai ganhando corpo durante a projeção. Trabalha de forma admirável a linha de tempo, com idas e vindas cuidadosamente organizadas, em uma irresistível estrutura não linear. A história é passada em São Paulo, quase inteiramente em uma cozinha. A montagem de sons e imagens é perfeita, aproveitando os cenários e seus objetos com extrema competência. Elvira e Onofre (Germano Haiut) são um casal de terceira idade que, apesar dos problemas financeiros, convive em harmonia, até um Liquidificador filósofo começar a falar - apenas com sua dona, que também passa a se sentir perseguida (indícios de esquizofrenia?).

O ambiente claustrofóbico da cozinha de dona Elvira é palco de um mistério que a tornará a principal suspeita do desaparecimento de seu marido. E é o Liquidificador quem vai ser o ponto chave para a trama se desenvolver em uma obra genial e ganhar um clima noir, com boas doses de humor negro - dignas dos melhores longas dos Irmãos Coen, de Um Homem Sério (2009). A narração de Selton Mello é fantástica. O Liquidificador faz perguntas filosóficas e reflexões existenciais, sempre traçando um paralelo entre o homem e a máquina.

Moralmente falando, o único ponto falho de Reflexões de um Liquidificador, que pode passar despercebido, mas deve ser levado em conta, é uma possível apologia à impunidade que a história transmite, mesmo que não tenha sido de forma proposital. Logo no começo da projeção já sabemos que há um crime, quem morreu, quem matou, qual a motivação e quem é o cúmplice - basta ver os noticiários e as trágicas manchetes de crimes passionais para captar este ponto de vista. Artisticamente, as cenas que desvendam os acontecimentos são fantásticas, mas deixam no ar uma sensação de mesquinhez na resolução do conflito - o que não tira a qualidade deste que é um dos melhores longas (não só nacionais) do ano, baseado em situações tão absurdas e bizarras (ou não?) que chegam a ser hilárias. Estreia: 12 de novembro.

Reflexões de um Liquidificador - 80 min
Brasil - 2010
Direção: André Klotzel
Roteiro: José Antônio de Souza
Com: Selton Mello (voz), Ana Lucia Torre, Germano Haiut, Fabiula Nascimento, Aramis Trindade, Marcos Cesana, Gorete Milagres



Por: Mattheus Rocha

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