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Era uma vez  Syracuse (Colin Farrell), um pescador conhecido pejorativamente como Circus, o palhaço, pelo seu passado alcoólatra. Mesmo tendo deixado o vício há mais de dois anos, isso ainda o incomoda e, como não existe nenhum grupo de alcoólicos anônimos em sua cidade, ele elege o Padre da igreja local (Stephen Rea) como seu amigo confidente, quase um terapeuta. Sua ex-esposa continua bebendo e sua filha Annie (Alison Barry) sofre de insuficiência renal e precisa de um transplante de rim. Sua vida é triste, cinza e sem graça.

Como se isso não bastasse, Syracuse está sem sorte no trabalho, voltando sempre de mãos vazias para sua solitária casa. Mas tudo muda no dia em que Ondine, uma misteriosa mulher (Alicja Bachleda, em seu primeiro grande papel), é, literalmente, pescada pela rede de seu barco. A partir daí, o filme se desenvolve como um intrigante conto de fadas moderno, com segura direção de Neil Jordan - que também assina o roteiro - e belíssima fotografia. Como ela foi parar em sua rede? Por que ela não quer ser vista por ninguém além de Syracuse? Que música é aquela que lhe traz tanta sorte na pescaria? Será que ela não é humana?

As selkies são parecidas com as sereias, mas, em vez de serem metade peixe e metade mulher, são metade foca. Podem viver na terra em forma apenas humana e casar com um land´s man (homem da terra), desde que enterre sua pele de foca. Em sete anos, ela chorará sete lágrimas e depois retornará ao mar. Passado na Irlanda, Ondine é baseado neste mito folclórico tão famoso na região como o saci pererê é no Brasil. A pequena e espertinha Annie, ao ouvir de seu pai a história da estranha pescaria, passa a acreditar que Ondine é uma selkie de verdade.

Permeada pela linda trilha sonora da banda islandesa Sigur Ros (quem disse que a Islândia só tem Björk?), o longa assume um caráter lúdico e envolvente, digno das melhores histórias de Era uma vez... Mas o mistério de Ondine passa a ser ameaçado pela figura misteriosa de um homem à procura de uma mulher desaparecida e o roteiro começa a dar explicações desnecessárias, daquelas que costumam cortar o barato do lúdico, da sensação de conto de fadas, do improvável. Porque a arte tem como uma de suas funções nos fazer mergulhar num universo de sonhos - alguns possíveis apenas nas telonas. Apesar de na parte final o clima mudar de um conto de fadas moderno, com elementos de romance, para um suspense previsível, Ondine é um ótimo filme. Estreia: 05 de novembro.

Ondine (Ondine) - 111 min
Irlanda, EUA - 2009
Direção: Neil Jordan
Roteiro: Neil Jordan
Com: Colin Farrell, Alicja Bachleda, Dervla Kirwan, Alison Barry, Stephen Rea



Por: Mattheus Rocha

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