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O começo de 400 Contra 1 é promissor. Estética visual do início dos anos 1970, câmera nervosa, excelente trilha sonora e ambientação, montagem ágil, estrutura narrativa não linear... Em alguns momentos, lembra até Jackie Brown (1997), de Tarantino. Tinha tudo para ser um filmaço, como Quase Dois Irmãos (2005), que também tem como pano de fundo a Prisão de Ilha Grande. Mas não é. Aos poucos, o longa vai perdendo força e densidade. As melhores cenas, que conseguem dar fôlego ao filme e livrá-lo da monotonia, são as cômicas. Mas, apesar de serem ótimas e contarem com atuações irretocáveis do elenco principal, vejo isso como algo perigoso e dúbio, que pode gerar simpatia de algumas mentes desavisadas - principalmente do público jovem. 

Apesar de ter sido fundada com o objetivo de criar um código de conduta entre os presos (algo inédito nos presídios brasileiros) e organizar um forte grupo, o Comando Vermelho se tornou uma coisa completamente diferente com o passar dos anos e a queda da ditadura (nem é preciso citar suas atividades atuais, certo?). Da resolução de conflitos como a falta de estrutura carcerária, a rivalidade com o Grupo do Jacaré e o anseio pela liberdade, seguiram-se banhos de sangue, greves de fome, fugas e espetaculares assaltos a banco. A história do surgimento da facção criminosa é contada sob a ótica de William da Silva Lima, o Professor (Daniel de Oliveira, ótimo como sempre), líder de um grupo de prisioneiros da Ilha Grande, no auge da ditadura, que exigiam ser tratados como presos políticos

Não sou adepto do conservadorismo e muito menos de falsos moralismos, mas o fato de 400 Contra 1 alternar cenas pesadas e violentas com tiradas leves e engraçadas - provavelmente usado como recurso narrativo para gerar simpatia com os anti heróis da história -, apesar de dar dinamismo a um filme que teria tudo para ser arrastado e chato (neste caso específico), deixa de lado um fator que não poderia ter sido ignorado pelo roteiro. Mesmo que os ideais que motivaram o surgimento do Comando Vermelho tenham sido válidos pelo contexto histórico em que os personagens estavam vivendo, hoje a história é outra e a deturpação desses ideais não foi abordada, fazendo com que a violência possa ser interpretada como algo banal. 

Na pré estreia, por exemplo, cenas de trocas de tiros e suicídio - sem nenhuma validade política, a meu ver, como as greves de fome ou ações de protesto - foram aplaudidas, o que confirma meu ponto de vista de que o longa pode gerar interpretações equivocadas e perigosas (mesmo que de forma instintiva e inconsciente, justamente pela aproximação do espectador com os personagens - que a construção do roteiro sugere). Apesar de ser parte do cotidiano - não só - do Rio de Janeiro, a violência não pode ser vista sem a devida complexidade que o tema exige e filmes que abordem fatos históricos desta importância não devem deixar de lado a contextualização dos fatos, apresentando apenas fragmentos de uma história que merece ser vista sob todos os ângulos necessários, inclusive seus desdobramentos - no caso, no que o Comando Vermelho se tornou. Estreia: 06 de agosto.

400 Contra 1 - Uma História do Crime Organizado - 98 min
Brasil - 2010
Direção: Caco Souza
Roteiro: Victor Navas, Julio Ludemir
Com: Daniel de Oliveira, Daniela Escobar, Fabrício Boliveira, Branca Messina, Lui Mendes, Jefferson Brasil, Jonathan Azevedo, Rodrigo Brassoloto, Felipe Kannenberg, Negra Li



Por: Mattheus Rocha

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  1. Mais um filme que retrata um Brasil pobre e violento!

    E Tropa2 vem aí, em outubro...

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  2. Tô animado pra 'Tropa 2', Umba !!!
    Abraços.

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