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Mais de 16 milhões de espectadores em 2009 garantiram ao cinema nacional o melhor desempenho nos últimos cinco anos (segundo dados da Ancine – Agência Nacional de Cinema), mas isso não é motivo para se comemorar. Dos 84 filmes nacionais lançados comercialmente no ano passado, apenas quatro ultrapassaram a marca de um milhão de ingressos vendidos em 2009 (ver box), números que demonstram que a produção audiovisual brasileira ainda não conquistou um espaço sólido no mercado.

Mesmo com a lei de cota de exibição de longas metragens nacionais, que estipula que cada cinema do país deve exibir filmes brasileiros durante 28 dias do ano, no mínimo (este número, assim como o mínimo obrigatório de títulos, aumenta conforme a quantidade de salas de cada exibidor), não há uma garantia de distribuição democrática para todas as produções, principalmente as independentes. “Há uma espécie de monopolização da Globo Filmes. As grandes salas não têm interesse em exibir filmes independentes”, avalia o ator e crítico de cinema Rangel Andrade.

Não coincidentemente, sete dos dez filmes nacionais mais vistos em 2009 têm alguma ligação com a Globo Filmes. “As salas precisam se manter e é lógico que um filme como Se eu fosse você 2 (maior bilheteria nacional desde a retomada, em 1995, com Carlota Joaquina) vai fazer mais público do que um filme de arte, mas os exibidores deveriam dar mais espaço a quem quer fazer cinema nacional de qualidade, sem visar apenas o mero entretenimento lucrativo”, complementa Rangel. A disputa por vagas nas redes exibidoras é acirrada e o investimento em publicidade, muitas vezes, define quem vai permanecer mais tempo em cartaz.

“É difícil para um filme independente conseguir uma sala para exibição. Nossos filmes concorrem entre si e com inúmeras produções estrangeiras. As grandes empresas exibidoras vão avaliar qual o filme que tem potencial de levar mais pessoas para a sala de cinema, que, por sua vez, estão nos grandes centros e têm um custo elevado de entrada”, analisa Julia Hada, coordenadora da Rede Brazucah no Rio de Janeiro, agência de comunicação que desenvolve ações de marketing para o lançamento de filmes nacionais, tendo como foco, principalmente, o público universitário, promovendo circuitos alternativos de exibição.

“O produtor brasileiro quase sempre tem pouca verba para a divulgação e aposta no famoso boca a boca, mas o problema é que o circuito exibidor não espera muito tempo: se o filme não foi bem no primeiro final de semana, começa a diminuir sua grade na sala, até sair de cartaz. Ficamos correndo atrás de nosso próprio rabo e não ultrapassamos a barreira do lucro”, observa Cynthia Alario, uma das fundadoras e diretoras da Brazucah. Hoje um filme dificilmente se paga somente nas salas de cinema do seu país.

Por isso é preciso pensar em novas formas de distribuição e exibição, que transcendam a sala de cinema convencional. “Fazemos sessões em universidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Recife, com ótimo retorno”, diz Cynthia. “O grande público brasileiro não conhece a cinematografia de seu país, por isso também investimos em ações nas escolas, para que este repertório faça parte da vida das pessoas”, acrescenta Julia.

Além disso, os produtores estão cada vez mais apostando em outras formas de gerar receita. Seja com a venda de produtos atrelados aos filmes (como camisas, chaveiros e bottons, por exemplo), com a produção de obras complementares (como o lançamento da trilha sonora e do roteiro), ou com a participação em festivais e entrada no mercado internacional. A venda de DVDs e de direitos de exibição para as TVs abertas e fechadas já se tornaram habituais e essenciais à sobrevida das obras. “Afinal, a história de um filme só começa nos cinemas”, diz Cynthia.

Os dez filmes brasileiros com maior bilheteria em 2009 (Fonte: Ancine)

Título
Público (2009)
Público total (2009 e 2010)
Renda 2009 (em R$)
Se eu Fosse Você 2
5.786.844
6.112.851
47.622.137
A Mulher Invisível
2.353.136
2.353.136
20.498.576
Os Normais 2
2.202.640
2.202.640
18.978.259,88
Divã
1.866.235
1.866.235
16.492.461,11
O Menino da Porteira
666.625
666.625
4.559.799
Besouro
481.381
481.381
3.769.206,75
O Grilo Feliz e os Insetos Gigantes
361.030
361.030
1.915.058
Salve Geral
316.077
316.077
2.640.159,02
Jean Charles
292.471
292.471
2.448.735,02
Xuxa em o Mistério de Feiurinha (ainda em cartaz)
250.109
1.200.000
1.766.416,65

Público não acompanha crescimento da produção de filmes nacionais

Enquanto a produção de filmes brasileiros cresceu 163% entre 2001 e 2008 (segundo dados da Ancine), o público não acompanhou esta que é a melhor fase do cinema nacional, desde a retomada. A venda de ingressos, neste mesmo período, cresceu apenas 6,6%. Rangel Andrade atribui este problema à distribuição ineficiente (restrita aos grandes centros) e à ausência de produções independentes nas grandes redes exibidoras: “Temos excelentes salas que não dão o devido investimento às produções nacionais de baixo orçamento”, afirma.

“A atual produção brasileira se foca mais em lançar filmes comerciais, que apenas divertem, em vez de dar aos espectadores a chance de pensar, questionar e se informar, característica mais comum aos filmes de arte, em sua imensa maioria, independentes, com pouco apoio e precária distribuição”, opina Rangel. Pensando nisso, o empresário Adailton Medeiros, que já participou de importantes projetos culturais, como a Lona Cultural de Anchieta, resolveu aproximar o cinema nacional de uma parcela menos favorecida da população. Para isso, ele escolheu abrir um cinema em Guadalupe, subúrbio do Rio de Janeiro.

O Ponto Cine, localizado dentro do Guadalupe Shopping, privilegia a exibição de filmes nacionais, a preços populares. “O filme brasileiro é o estrangeiro dentro de nosso próprio país, onde as salas são ocupadas, quase em sua totalidade, pela cinematografia norte-americana”, analisa Adailton. “O Ponto Cine oferece cultura nacional à população de baixa renda. Muitos deles nunca tinham ido ao cinema antes. Estamos consolidando uma nova plateia para o filme brasileiro”, entusiasma-se.

Ponto Cine é o primeiro cinema digital da América Latina

Para tornar viável o projeto, não era preciso apenas montar o cinema, mas também investir em uma tecnologia que barateasse o custo de exibição dos filmes e, consequentemente, dos ingressos (hoje o Ponto Cine cobra R$ 6,00 a inteira e R$ 3,00 a meia-entrada). Adailton chegou a ser taxado de louco, ao solicitar parcerias e patrocínios a algumas empresas. “Um cinema digital em Guadalupe (utopia), no segmento de filmes de arte (viagem), com prioridade para filmes nacionais (delírio). Tinha gente que pensava que eu estava surtando”, admite.



“Com muitas dificuldades consegui três parceiros fundamentais: o Guadalupe Shopping, a RioFilme e a Petrobras, que nos trata como projeto de ponta, não só nos financiando, mas nos indicando a outros parceiros”. Estava pronto o Ponto Cine, primeiro cinema digital da América Latina, inaugurado em 2006. Por não utilizar os rolos de filmes (as películas), o custo de exibição torna-se menor, principalmente por não haver necessidade de transporte. “Hoje o Ponto Cine é motivo de orgulho para os moradores de Guadalupe. Privilegiando o cinema nacional, o bairro saiu das páginas policiais, para frequentar os cadernos de cultura de grandes jornais e revistas”, exalta Adailton.

“Saindo daquele velho conceito de que ator global é que chama público, e privilegiando a arte, teremos métodos mais democráticos de distribuição e exibição do cinema nacional. Temos muitos filmes independentes melhores do que qualquer campeão de bilheteria, mas que, infelizmente, não chegam ao grande público. Acredito que projetos corajosos podem reverter este quadro”, opina Rangel Andrade. O Ponto Cine é um deles. “Proporcionalmente, temos uma média percentual de lotação de sala superior à dos outros cinemas no Brasil, e isso levando em conta que eles exibem os blockbusters americanos. Estamos na faixa dos 34%”, avalia Adailton.

Como funciona o cinema digital

No cinema digital, o filme é uma combinação de códigos, transmitidos por sinais de satélite (como acontece com a televisão de nossa casa) ou via internet banda larga. Estas combinações ficam armazenadas no HD de um computador, como se fossem lembranças armazenadas na memória (HD). Toda vez que o processador (computador) é acionado para resgatar essa memória, as lembranças das imagens são lançadas na tela, por um projetor de alta definição e, simultaneamente, as lembranças dos sons, pelo sistema de sonorização de alta fidelidade.

Entrevistados:

Rangel Andrade (ator, crítico de cinema) - Outra Coisa
Julia Hada (coordenadora da Brazucah no Rio de Janeiro) - Rede Brazucah
Cynthia Alario (sócia e fundadora da Brazucah) - Brazucah
Adailton Medeiros (idealizador e diretor do Ponto Cine) - Ponto Cine

Por: Mattheus Rocha

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  1. Adorei a matéria! Como você disse, é longa, mas quando a matéria é boa a leitura fica gostosa!!

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  2. O problema do cinema brasileiro é seu "engajamento polititico" que sempre apela pra um ranço ideoçógico de esquerda que enoja e transforma a maioria dos filmes nacionais em propaganda política sobre acontecimentos de 40-45 anos atrás. É chato como filme francês. Seria melhor que os diretores brasileiros caissem na real e fizessem filmes simples, sem esse papo furado politiqueiro...

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  3. Anônimo, você generalizou de forma equivocada tanto o cinema nacional quanto o francês. Não consigo me lembrar de um único país cuja cinematografia não possua um ou outro filme com engajamento político, mas o cinema brasileiro , e o francês, têm muito, mas muito mesmo, a oferecer do que apenas isso. Basta ver a lista de filmes brasileiros deste ano.
    Abraços e volte sempre.

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  4. Nota-se que esse anônimo não conhece muito de cinema nacional, muito menos de cinema francês. E menos ainda do "engajamento político" que existe no cinema.
    Triste, de fato.

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  5. Aaah, sobre a matéria...
    Meu caro, você já merece o diploma, pode sair da faculdade.
    Texto incrível. Bem amarrado, levado num tom gostoso de se ler.
    parabéns! mais uma vez.

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  6. só deixar minha opinião: isso mostra como não se resolve nada com canetada. Não se altera fatores culturais com lei.
    Os filmes nacionais são ruins. Essas maiores bilheterias são filmes B, muito ruins mesmo, muito aquém da qualidade artística que o público está acostumado ao ver produções internacionais.
    Sempre se disse que o problema do ciena nacional era técnico. Quando resolvem a parte técnica (hj em dias as coisas ficaram mais fáceis) a desculpa é que os cinemas bloqueiam espaço. Obrigam espaço por lei.
    Mas o problema mesmo é que o Brasil não produz filmes quesejam ao mesmo tempo inteligentes e comerciais. Não se acredita nesse equilíbrio por aqui, acham que pessoas inteligentes não consomem entretenimento.
    Não vão atrair público popular sem torrar fortunas com técnica, não vão atrair público culto com filme pouco inteligentes.
    O cinema alternativo é bom, mas sempre vai ser isso, alternativo. Se querem mesmo investir num cinema rentável, é preciso saber equilibrar os valores do filme, achar um nicho e se firmar nele. Depois atacar em grandes produções populares.

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  7. Sua matéria é densa e traz evidências que comprovam o seu pensamento e eu meu também, diga-se de passagem. Penso que o cinema nacional cresceu absurdamente em pouco mais de dez anos e que vem sim, trazendo ao público filmes de qualidade...posso citar alguns q jah vimos esse ano como "Sonhos Roubados", "Histórias de Amor duram apenas 90 minutos", "Olhos Azuis", "Quincas berro d´agua" e por aí vai. São filmes bem executados tecnicamente e artisticamente.
    Mesmo com toda a boa safra sou obrigada a concordar com o Matt diante dos argumentos expostos na matéria. Parabéns, Matt, excelente texto!

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  8. Gostei da materia, cai de gaiato aki no blog vindo pelo ocioso...

    No meu ponto de vista o cinema nascional esta entrando na sua adolescencia, sabe, quando começamos a crescer e por falta de maturidade damos mais atenção as coisas futeis... cito como exemplo filmes "como se fosse você" e " A mulher invisivel"... são filmes q te deixam com aquela cara de "ha, mas eu já vi alguma coisa parecida com isso" e mesmo assim, continuam sendo divertidissimos de assistir.

    Porem ainda tem aqueles filmes que acabam caindo no anonimato, as vezes por falta de divulgação ou pelo fato do tema não ser tão popular, entendo q não só de palmas sobrevive um diretor, mas para esses filmes seria escencial esquecer um pouco do lucro e se pensar mais em distribuição... sei lá, libera o arquivo na internet com legendas em varios idiomas, insentive projetos voltado a cinemas,algo q faça um apreciador a pegar um projetor e exibir filmes no portão da sua casa, na sua igreja, na porta do supermercado, na praça proxima a sua casa ( rs um dia eu pretendo fazer isso...)...

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  9. É o capitalismo, eles faz parte do desenvolvimento, todos aqui sabem que anos atrás éramos muito atrasados culturalmente em relação a outros países, musicas que estava quase acabando a fase de sucesso em países do exterior, aqui começavam a tocar depois de 1 a 2 anos... filmes mesma coisa, hoje em dia os cultos do meu Brasil que querem fazer filmes muitas vezes massantes e que passam mensagem para apenas uma parcela da sociedade querem enfiar guela abaixo eles na sociedade através de leis e tudo mais, também existem produções que se utilizam de patrocínio de empresas com petrobrás da vida e acabam fazendo filmes de qualidade péssima... Pessoal o negócio é popularizar o CINEMA nacional através de filmes comerciais mesmo, voltar aos anos anteriores onde filmes brasileiros eram valorizados nas salas de cinema... e ai quando os COMERCIAIS retomarem a questão da exibição dos filmes nacionais, ai sim poderemos pensar em inserir os alternativos e mais cultos... é tudo uma questão comercial... afinal quem tem um cinema fez isso por lucro. mas fiquem de olho na questão de que tem muitos oportunistas ai que usam de verbas de patrocínio para fazerem filmes péssimos e etcs... sigam essa lógica NACIONAIS COMERCIAIS => REAPROPRIAÇÃO DO MERCADO NACIONAL => CONSUMO DE MATERIAIS DE PUBLICIDADE, DE CONSUMO E ETCS RELACIONADOS AOS FILMES => INVESTIMENTOS => VALORIZAÇÃO DO CINEMA NACIONAL => INSERÇÃO DE FILMES "B" DE BOA QUALIDADE => CRIAÇÃO DE PUBLICO DEVOTO AOS NACIONAIS... mais ou menos isso!

    eu sou a favor dos filmes nacionais mas acredito que tem uma longa estrada a ser percorrida ainda! BOA SORTE aos NACIONAIS!

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  10. Eu também senti uma melhora significativa, mas há muita coisas a ser feita mesmo, todas iniciativas são bem vindas, assim como as críticas devem ser ouvidas, pois a parcela dos frequentadores que acham o cinema nacional ruim é grande, criou-se estigma de filme ruim e o público não quer saber de pequenas melhoras e sim do produto final.Eu vi, é bom, beleza vou assistir também. O potencial nós temos, falta buscar forma de atrair os investimentos, como disseram acima nosso cinema está na adolescencia.

    Como sempre, ótima matéria!

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