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Um Morto Muito Louco Baiano



"Ao verme que primeiro roer as frias carnes do meu cadáver, dedico, com saudosas lembranças, estas memórias póstumas". Não, esta frase não é de Quincas Berro D'Água, personagem de Jorge Amado, mas sim de seu primo distante, Brás Cubas, personagem de Machado de Assis. Não pretendo comparar os dois livros, mas seus protagonistas têm algumas coisas em comum, principalmente o fato de estarem mortos. Quincas parece ser mais feliz, festeiro e boêmio - "Minha vida de morto é mais animada do que a de muito vivo por aí" -, enquanto Brás Cubas é mais centrado e irônico, dono de um delicioso humor, refinado e filosófico. Quincas é Um Morto Muito Louco, agora magistralmente adaptado para o cinema brasileiro, com estreia marcada para 21 de maio. 

Após anos de serviço público, cansado de seu trabalho e de sua família, Joaquim Soares da Cunha (Paulo José) decide largar tudo e cair na boemia. Arruma amigos de farra pelas ladeiras de Salvador (Bahia), uma amante latina, se esbalda na cachaça e adota a alcunha de Quincas Berro D'Água. Após anos na esbórnia, o ex funcionário público, e agora capitão de uma equipe de malucos belezas que o consideram seu painho, bate as botas em terra firme, ao contrário do que desejava. Marinheiro deve morrer no mar. E é lá que ele pretende morrer pela segunda vez, já que na primeira não deu.

Joaquim Quincas: o mesmo corpo, duas pessoas completamente diferentes. As vidas opostas ficam evidentes em seu velório, quando as duas famílias se encontram (os parentes de Joaquim e os amigos de Quincas) e não se batem de jeito nenhum. De um lado, o catolicismo, o comportamento recatado e a educação formal. De outro, a macumba dos terreiros, a bebida e a festança. Os marinheiros não conseguem acreditar que seu painho morreu no dia do seu aniversário e resolvem lhe dar uma festa mesmo assim. Na verdade, eles realmente acreditam que Quincas ainda está vivo. "Ele deve estar pregando uma peça na gente, esse cabra da peste". 

E levam Quincas, ou melhor, o corpo de Quincas, para uma última noite de bebedeira, mulheres e diversão. A narração em off do painho, consciente de tudo o que está acontecendo, é hilária. A confusão é tamanha, que eles passam a ser perseguidos pela polícia. Sua filha (Mariana Ximenes) presta queixa na delegacia e o delegado (Milton Gonçalves) fará de tudo para recuperar o corpo e seus pertences. Além de ser uma comédia ágil e divertidíssima, bem dirigida e com ótimas atuações, a parte técnica do filme chama a atenção. Fotografia, direção de arte, roteiro, cenografia... tudo perfeito. Até o som, aspecto tão criticado do cinema nacional, é fantástico (tanto a captação, quanto os efeitos).  

Quincas Berro D'Água é uma grande obra da cinematografia brasileira, que une qualidade técnica, narrativa e de conteúdo a apelo comercial (coisa bem difícil de se fazer em nosso país). Com certeza será um grande sucesso de crítica e público. Sérgio Machado, diretor de Cidade Baixa (2005), tem em Quincas, seu quinto longa metragem, uma deliciosa comédia, perfeita em todos seus detalhes. A equipe de produção do filme inovou na divulgação antes da estreia, oferecendo uma sessão exclusiva para Blogueiros, no Rio de Janeiro, reconhecendo a força da Blogosfera e a importância de tê-la ao seu lado.

Quincas Berro D'Água 
Brasil - 2010
Direção: Sérgio Machado
Roteiro: Sérgio Machado - Baseado no romance de Jorge Amado
Com: Paulo José, Marieta Severo, Mariana Ximenes, Vladimir Brichta, Milton Gonçalves, Luis Miranda, Flavio Bauraqui, Irandhir Santos, Frank Menezes




Por: Mattheus Rocha

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  1. Eu fui um dos ganhadores de uma promoção pra assistir a pré-estréia do filme aqui no Rio e certamente irei conferir, até porque gostei muito do trailer.
    Abraços!

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  2. Isso é um bom filme brasileiro.
    deve ser uma excelente adaptação demonstrando parte da da nossa cultura criativa e bem humorada.

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