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"Sou capaz de imaginar seis coisas impossíveis antes do café da manhã". O pai da pequena Alice a ensinava que só é impossível aquilo que não acreditamos ser possível. Na verdade, nossas limitações não passam de correntes imaginárias que nós mesmos nos infligimos. Isso quando não oferecemos nossos próprios pulsos aos carcereiros da vida, sem pudor algum. Ou seja, nada de impor limites à concretização de nossos sonhos, muitos menos a nós mesmos. A menina dos pesadelos repetidos cresceu e aprendeu a lição direitinho.

Muitas interpretações diferentes são atribuídas à obra de Lewis Carroll, lançada em 1865 e que teve uma continuação, chamada de Alice Através do Espelho. A mais coerente, a meu ver, é que se trata de uma fábula sobre a passagem da criança à vida adulta, quando ela se confronta com um novo universo, cheio de responsabilidades, decisões a serem tomadas e mudanças corporais. Alice no País das Maravilhas é daquelas obras que todo mundo conhece. Mesmo quem não leu o livro, sabe pelo menos algumas coisas sobre as aventuras da menina embaixo da terra.


A adaptação de Tim Burton une os dois livros em apenas um filme. Fantasia, personagens maravilhosos, provações, animais falantes, crítica à aristocracia inglesa do século XIX, e, principalmente, o tão aguardado espetáculo em 3D. Um freak show (no melhor sentido do termo) com a assinatura visual de um dos diretores mais estilosos e autênticos da história do cinema. Alice é interpretada pela jovem Mia Wasikowska, que conseguiu o papel desejado por onze entre dez atrizes de sua faixa etária. Até a doidinha da Lindsay Lohan queria ser Alice (ainda bem que não conseguiu). Mia se sai muito bem como a protagonista da trama, mas Johnny Depp (como o Chapeleiro Maluco) e Helena Bonham Carter (como a cabeçuda Rainha Vermelha) roubam a cena, com brilhantes intervenções.

O único ponto fraco do longa é Anne Hathaway, que, apesar de dar leveza e graciosidade à Rainha Branca, deixa perceptível que não está na mesma sintonia que os outros atores. Parece que sua personagem não tem vida. Mas, felizmente, isso não chega a comprometer a dinâmica do filme, como Anna Kendrick fez em diversas cenas de Amor Sem Escalas. Geralmente, quando vamos a uma sessão de cinema com muita expectativa, nos decepcionamos. Deve ser algo psicológico, não sei ao certo. Mas fato é que a maldição da falsa expectativa acontece bastante. Ainda bem que, com Alice no País da Maravilhas, fui surpreendido.


Já tinha visto trailers, teasers e lido diversas matérias sobre o longa, desde que ele começou a ser concebido. Não segui os conselhos da tal da expectativa, que ficava sussurrando em meu ouvido que eu, como cinéfilo, deveria procurar o distanciamento necessário para só me envolver com o longa durante a projeção (e assim tentar evitar uma possível decepção) e, como crítico de cinema, deveria procurar o distanciamento necessário para fazer uma boa (e imparcial) análise da obra. Mas, meu coração cinéfilo falou mais alto. Eu tinha certeza que, quando sentasse na poltrona da sala de exibição e colocasse os óculos 3D, estaria diante de um verdadeiro espetáculo.

E foi o que aconteceu. Sigo o exemplo da corajosa Alice, que em pleno século XIX desafiava as regras impostas pela sociedade aristocrática, não aceitando desde coisas simples, como o uso de roupas da moda, a complexas situações, como enfrentar sua mãe, que queria obrigá-la a se entregar a um casamento arranjado. Vamos chutar a formalidade para escanteio. Só posso definir o sentimento de ver Alice no País da Maravilhas em 3D como uma sequência de múltiplos orgasmos cinematográficos. Em diversos momentos me lembrei de O Mágico de Oz (1939), pelas semelhanças entre as estórias. Será que vão relançar as aventuras de Dorothy em 3D?

A pequena Alice tem pesadelos recorrentes, nos quais está em um mundo fantástico, com coelhos falantes, um chapeleiro maluco, uma lagarta azul e um gato que sorri. Seu pai a ajudava a lidar com seus medos. Após sua morte, Alice cresce colocando em prática seus ensinamentos e se mostrando uma jovem mulher com muita personalidade. No dia em que ela está prestes a tomar uma decisão que poderá mudar sua vida, vê um coelho vestido apontando para um relógio. Ela o segue até uma toca, que é o portão de entrada para os seus sonhos (ou realidade?). Lá, além de passar por diversas provações e frenéticas aventuras, Alice terá que refletir sobre uma misteriosa pergunta: "Por que um corvo se parece com uma escrivaninha"?

Alice no País da Maravilhas (Alice in Wonderland) - 108 min
EUA - 2010
Direção: Tim Burton
Roteiro: Linda Woolverton - Baseado no livro de Lewis Carroll
Com: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Crispin Glover, Stephen Fry, Alan Rickman, Christopher Lee


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  1. Como ainda não vi o filme, só pra entender uma coisa: casamento? Como assim? No livro que eu li Alice era uma criança ainda. Será que essa história de Hollywood querer transformar tudo em romance não pode ter estragado o roteiro original? Imagino que os efeitos devem ser belíssimos, mas a história histporia mesma não saiu muito fraca no final? To falando como alguém que já leu o livro. Diz aí!

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  2. Thiago,

    a adaptação de Tim Burton é uma junção dos dois livros, 'Alice no País das Maravilhas' e 'Alice Através do Espelho'. Por isso, alguns fãs do primeiro livro podem estranhar e até reclamar (eu não li nenhum dos dois, por isso não posso comparar o roteiro com eles), mas achei a estória ótima e bem construída.

    Abraços.

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  3. Bom, os fãs de Alice não são tão xiitas quanto os de Senhor dos Anéis, acredito, por isso não devem reclamar tanto do Burton não ter sido muito fiel aos originais.
    Apesar da minha miopia, quero ver esse filme em 3D!

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  4. Eu estou ainda na espectativa...acho mesmo q o filme vai ser um arraso e q vou ter convunções de alegria.Sou fã do Tim Burtom (menos quando ele tenta dirigir Batman)...estou tão focada q li tudo sobre o conto de Alice...As criticas a Inglaterra e principalmente a desmerecida rainha Vitória pelo visto são bem claras.
    Realmente....Orgasmos Cinéfilos
    Dane-se q sou miupe

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  5. Apesar dos belos argumentos para dizer que o filme é fantástico, irei ao cinema com aquele clima de 'vou me decepcionar', como você mesmo mencionou.

    Gosto de espetáculos visuais, mas sempre acabo me decepcionando quando assisto a um blockbuster. Uma coisa sei que é garantida: a atuação de Johnny Depp e Mia Wasikowska devem ser arrasadoras.

    Abs,
    Tiago

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  6. Eu vi Alice no País das Maravilhas e gostie muito. Claro, como boa fã, pensei que fosse como o original. Só ao ver o filme é que vi a que história se passa anos depois. '-'

    Particularmente, a única coisa que não gostei foi do gato. Ele devia ser cor-de-rosa e não verde-cinza! >__<

    Soube que o Tim Burtom pretende também criar um filme da Familia Adams *-----*

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  7. Acabei de ver "Alice". Não amei nem odiei. É um filme esteticamente encantador, mas como todo filme do Tim Burton, tem um quê de melancolia em todos os personagens. Acho que isso tirou um pouco a energia do filme. Como o roteiro é bem linear, se não fossem as cenas mais agitadas e a trilha sonora empolgante, ficaria entediante. Mas, é um bom e melancólico filme de aventura e fantasia. Me lembrou um pouco "História sem fim"...

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