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A arte tem o poder de transformar as pessoas. Morangos Silvestres, do mestre Ingmar Bergman, foi um dos filmes que me fizeram ver o mundo de uma forma diferente e contribuíram para formar o cinéfilo que sou hoje. Mas, quando vi Annie Hall (pessimamente traduzido no Brasil como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa) pela primeira, de dezenas de vezes, percebi que sua técnica e originalidade também inspiraram outras pessoas. Além de fazer referências explícitas a BergmanWoody Allen adapta a abordagem de densas e profundas questões existenciais a um humor urbano irresistível, carregado de ironia, sarcasmo, inteligência e coragem. Sem dúvida nenhuma, Woody é meu diretor preferido. Admiro muito o trabalho de Bergman e o considero o cineasta mais completo da história, mas, neuroses à parte, me identifico mais com as personagens de Woody

Os filmes de Bergman são dotados de uma pesada carga dramática. O espectador necessita estar com um estado de espírito propício à sua devida apreciação, tamanha a densidade dos temas propostos. Se estiver meio pra baixo, ou de mau humor, o incômodo será inevitável. Ponto importante: uma pessoa acostumada apenas a blockbusters estúpidos dificilmente estará apta a tal proeza. Mesmo com uma roupagem bem mais suave, pelo predomínio da comédia em sua filmografia, não há como não perceber as influências Bergmanianas nos filmes de Woody. Interiores (1978) é uma de suas poucas incursões pelo drama. Nelas, a influência torna-se bem mais clara e contundente.

Em Annie Hall (1977), Woody brincou com a linguagem cinematográfica de uma forma genial, fazendo sua obra prima. Desde o começo de sua carreira, é um dos poucos cineastas que mantêm a média de um filme por ano (ele gosta de trabalhar). Lançou diversos longas memoráveis, mas, no começo dos anos 2000, sua fórmula pareceu desgastada. Resolveu sair de seu casulo em Nova York e usar locações diferentes, como Inglaterra (Match Point - 2005) e Espanha (Vicky Cristina Barcelona - 2008). Suas obras nascidas em solo europeu deram um gás e um novo direcionamento à Woody, mas, é em sua volta pra casa, com o genial Tudo Pode Dar Certo, seu novo filme, que o velhinho se reinventa.  

Os críticos de Woody costumam taxá-lo de chato e repetitivo. Dizem que ele sempre conta a mesma estória, mudando apenas os títulos dos filmes e os nomes das personagens. Mas ele soube atingir a maturidade artística justamente na repetição. Na repetição de um estilo inconfundível, único e rico. Por mais que seus filmes tenham temáticas parecidas, sempre há novidades. O estilo é o mesmo, não as estórias. Sua personalidade é tão forte, seus questionamentos tão corajosos, suas inovações tão sutis, que é necessário sensibilidade para compreendê-los e refletir.

Tudo Pode Dar Certo é como um novo Annie Hall. Boris Yellnikoff (Larry David) é um velho prepotente, que se considera um gênio, e não tem papas na língua. Para ele, todas as pessoas com quem se relaciona são  intelectualmente muito inferiores a ele, e não vê problemas em dizer o que pensa delas. Não vê problemas nem em dizer o que pensa de nós, que estamos vendo o filme do qual é protagonista. É um misantropo assumido. Viver sozinho foi sua opção, até, por um incrível acaso, conhecer Melodie (a lindíssima Evan Rachel Wood). Ela não tem onde morar e, com sua simpatia, convence Boris a lhe ceder um espaço. A vida dos dois toma rumos inesperados a partir desta conflituosa relação.

As cores das roupas das personagens refletem suas personalidades de uma forma muito interessante. Os tons pastéis são privilegiados e os cenários são sóbrios, evidenciando a inércia de suas vidas. Parece um Almodóvar ao contrário. À medida em que novas personagens vão entrando e enriquecendo a trama, as cores quentes anunciam as mudanças nos destinos de alguns. Boris é um cara cético, observador, hipocondríaco e desagradável. Será que uma bela jovem inexperiente, que acabou de fugir de casa, vai conseguir mudar sua vida? Será que seus pais vão permitir que se aproximem muito? No fim, na vida real ou na ficção, tudo pode dar certo. Ou não.

Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works) - 92 min
EUA, França - 2009
Direção e Roteiro: Woody Allen
Com: Larry David, Evan Rachel Wood, Patricia Clarkson, Adam Brooks, Lyle Kanouse, Michael McKean

Por: Mattheus Rocha

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  1. lá vou eu de novo. ^^ eu não vi nenhum desses filmes O.o conheço 'Noivo neurótico, noiva nervosa' apenas de nome, nunca consegui encontrar... e vicky cristina barcelona tenho aqui em dvd, mas ainda não assisti. geralmente gosto mais de filmes 'água com açucar' sabe como é, né? coração mole... mas é isso ai. Parece, esse ultimo, ser um filme legal, o nome é atraente, sexy... rs ^^

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  2. Além de ótimo escritor, escreve excelentes críticas cinematográficas também.
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    http://duventublog.blogspot.com/

    Levi Ventura

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  3. Confesso que não sou muito fã dos filmes do Woody Allen, mas "Vcky Cristina Barcelona" me deixou curiosa para assistir, e até hoje não consegui. Vou ver se vejo por esse dias.

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  4. O Woody Allen é um diretor simplesmente fantástico. Contudo, não gostei muito de "Whatever Works", apesar da ótima atuação do Larry David. Assisti ao filme, mas achei que estava faltando algo, assim como aconteceu com "Vicky Cristina Barcelona". Ou seja, nenhum dos dois foram grandes acertos, na minha opinião. Mesmo assim, continuo admirando bastante o mestre Allen, até porque não é fácil acertar em todas. Grande abraço!

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  5. Woody Allen, o diretor velhote mais safado do cinema. He!

    Prefiro Escorpião de Jade. He!

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  6. Oi!
    Primeiramente, agradecer a visita em meu blog semana passada e também avisar que já adicionei seus links aos meus favoritos. Temos um post novo lá também, caso queira dar uma olhada.
    Woody tem uma técnica e uma sutileza extremamente refinadas e fazem do cinema a grande arte que é.
    Com certeza o filme já está na minha lista para ver este ano. Muito boa sugestão.


    Abraços

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  7. Seu link foi publicado na Linklândia!

    Parabéns e obrigado por contribuir!

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  8. Woody Allen é um gênio! Vou assistir, me interessei agora!

    Abraços
    www.borarir.com

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  9. Woody excelente, só assisti metade de Noivo neurótico, noiva nervosa (o filme falhou) e mesmo assim, achei sensacional, e Bananas, ótimo...O peculiar humor dele, que passa de escrachado a Psicológico fazdas suas obras algo que marca.

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