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Vivemos em um mundo globalizado, tecnológico e capitalista, onde a publicidade é usada como a maior ferramenta de estímulo ao consumo (indispensável à sobrevivência deste sistema).

Uma das consequências da globalização é a abertura de diferentes culturas para a troca de informações. Da tecnologia, é o fácil acesso a essas informações. Com a queda do limite tempo-espaço, o resultado da propaganda é a cada vez mais crescente oferta de imagens. Ou seria imposição?

Você liga a televisão e, além de ver diversos comerciais entre as partes de determinado programa, ainda tem que engolir comerciais dentro dos próprios programas. Se você cansar disso e resolver dar uma volta na rua, verá outdoors, receberá panfletos, passará por vitrines, bancas de jornal com imensos cartazes etc.

Wim Wenders diz: “A maioria das imagens que vemos não tentam nos dizer algo, mas nos vender algo. Na verdade, a maioria das coisas que vemos (revistas, televisão) tentam nos vender alguma coisa”.

É comprovado cientificamente que nossos sentidos são limitados e não conseguimos enxergar a natureza como ela realmente é. Além disso, esta demanda aparentemente infinita de informações e imagens acaba fazendo com que as pessoas não enxerguem as coisas. Elas apenas veem. Mas não as processam. Então, o ser humano, que já não consegue enxergar a natureza como ela realmente é, não só não enxerga o mundo como ele realmente é, como passa a não enxergar o seu “mundinho” como acha que ele é. Torna-se um passageiro bobo, que vai apenas para onde o trem vai, consome apenas o que lhe é oferecido, pensa apenas o que lhe dizem etc.

Mas, qual a diferença entre ver e enxergar? Ver é fácil. Quem tem olhos e não é cego faz isso. Agora, enxergar é mais difícil. É questionar. É ver além da imagem. Além daquilo que está à sua frente. Nem tudo tem a forma que aparenta ter. Nem todas ideias têm o objetivo que aparentam ter.

O filme "Janela da Alma", documentário, de 2002, dirigido por João Jardim e Walter Carvalho, mostra como pessoas com algum tipo de deficiência visual – seja de uma simples miopia à cegueira total –, se percebem e percebem o mundo à sua volta. Entre os entrevistados, João Ubaldo Ribeiro, José Saramago, Walter Lima Jr. e Wim Wenders.

O músico Hermeto Pascoal dá um belo depoimento:

“Eu nunca senti falta da visão, porque não sei como é que os outros veem. Eu não sei como é que as pessoas me enxergam. Viajando de ônibus, é uma coisa linda. As pessoas dizem que viajar de ônibus é um saco. ‘Bicho’, tô lá na cadeira, vendo coisas maravilhosas, que ninguém tá vendo, mas eu tô vendo. E tá todo mundo achando que eu não tô vendo. Enxergando menos do que eu. Essa visão interior que eu tenho é o que a gente desenvolve mais”.

“Eu me lembro que quando eu tinha trinta e poucos anos de idade, eu disse numa entrevista que pedi a Deus pra me deixar um tempo cego, porque tinha outras coisas que eu sentia que podia desenvolver mais. Que, olhando, era tanta coisa junta que a gente vê, que atrapalha a visão certa, a visão das coisas que a gente quer fazer na vida”.


Por: Mattheus Rocha

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